Contexto de ONGs no Brasil
Panorama aprofundado das ONGs e do terceiro setor brasileiro: como medir o setor sem confundir fontes (Ipea, RAIS/MTE, IBGE/Cempre), linha do tempo dos marcos legais, das misericórdias de 1543 à LC 227/2026, financiamento (Censo GIFE 2024 to 2025, R$ 5,8 bi de ISP, e Doação Brasil 2024, R$ 24,3 bi), voluntariado, Pix e digitalização, filantropia de periferia, desafios e oportunidades, panorama regulatório 2025-2026 (ano-teste da reforma com CBS de 0,9% e IBS de 0,1%, corte de 10% nos incentivos, LC 235/2026 e IN RFB 2.307/2026, com checklist de compliance) e cinco organizações brasileiras reais (Fundação Itaú, Instituto Ayrton Senna, Todos Pela Educação, Instituto Sou da Paz e Gerando Falcões), com cinco casos brasileiros numerados, tabelas com fonte e ano, curiosidades verificadas, números que NÃO devem ser usados em aula e questões práticas comentadas.
O contexto das organizações não governamentais no Brasil é moldado por uma combinação incomum: uma base histórica de caridade institucional que nasce no século XVI, um arcabouço legal que se refaz a cada década e um mercado de doação que, em 2024, bateu recorde de volume enquanto perdia doadores. Compreender esse cenário é essencial para atuar com eficiência no terceiro setor brasileiro, e o primeiro obstáculo não é conceitual, é estatístico: o Brasil não tem um número único para "quantas ONGs existem", tem recortes que respondem a perguntas diferentes.
A regra de ouro desta lição: nenhum número circula sem fonte e ano. "917.727 OSCs" (Ipea, fev/2025), "3,7 milhões de vínculos" (RAIS/MTE, 2023) e "11,3 milhões de estabelecimentos" (IBGE/Cempre, base 2023) medem coisas diferentes e não são somáveis. Citar número sem a fonte é o erro mais comum do tema: em prova, em edital e em relatório para conselho.
Nesta lição você vai:
- dominar os três recortes de medição do setor (Ipea, RAIS e IBGE/Cempre) e saber qual usar em cada situação;
- percorrer a linha do tempo dos marcos legais, de 1543 a 2026, com um diagrama visual e uma tabela completa;
- entender a onda tributária de 2021 a 2026 (LC 187/2021, EC 132/2023, LC 214/2025, LC 224/2025 e LC 227/2026) e onde ela trava na prática;
- operar o panorama regulatório 2025-2026: ano-teste da reforma (CBS de 0,9% + IBS de 0,1%), corte de 10% nos incentivos, LC 235/2026, IN RFB 2.307/2026 e um checklist de compliance para o conselho;
- ler o Censo GIFE 2024 to 2025 (ISP de R$ 5,8 bilhões) e a Pesquisa Doação Brasil 2024 (R$ 24,3 bilhões) como fontes de decisão, não como coleção de números;
- conhecer cinco casos brasileiros com números: Mapa das OSCs, Censo GIFE, Doação Brasil, Periferias e Filantropia e Dia de Doar;
- analisar cinco organizações brasileiras reais (Fundação Itaú, Instituto Ayrton Senna, Todos Pela Educação, Instituto Sou da Paz e Gerando Falcões) e o que cada uma revela sobre financiamento, governança e escala;
- reconhecer os desafios estruturais (sustentabilidade é o nº 1 para 66% das lideranças) e as oportunidades reais (Pix, IA generativa, filantropia de território);
- identificar os números divergentes e não verificados que circulam no setor e nunca levá-los para a sala de aula ou para a prestação de contas.
1. Medir o terceiro setor: três recortes que não se confundem
1.1 As três perguntas, as três respostas
Existem pelo menos três perguntas distintas que o país faz sobre o setor, e cada uma tem uma fonte própria, com base, ano e metodologia diferentes:
Pergunta | Fonte e base | O que ela mede |
|---|---|---|
Quantas organizações existem? | Ipea: Mapa das OSCs (CNPJ e Receita) | Universo de OSCs mapeadas: 917.727 (fev/2025) |
Quantas pessoas o setor emprega? | RAIS/MTE (vínculos formais) | 3.703.881 vínculos em entidades sem fins lucrativos (2023) |
Quantos estabelecimentos há? | IBGE/Cempre (extração de CNPJ) | 11,3 milhões de unidades, das quais 1,2 mi (10,3%) são ENSFIL (base 2023) |
As três respostas são verdadeiras ao mesmo tempo. Uma mesma associação de bairro conta uma vez no Mapa das OSCs, pode contar zero vezes na RAIS (se não tiver empregados formais) e conta uma vez no Cempre. Por isso, a frase "o Brasil tem X ONGs" só é honesta quando acompanhada da fonte.
1.2 Tabela de dimensão do setor, com fonte e base
Indicador | Valor | Base / ano | Fonte |
|---|---|---|---|
OSCs mapeadas no Brasil | 917.727 | fev/2025 (publicado em 01/nov/2025) | Ipea: Perfil das OSCs 2016 to 2025 |
Densidade nacional | 4,5 OSCs por mil habitantes | fev/2025 | Ipea |
OSCs sem nenhum vínculo formal | 705.052 | fev/2025 | Ipea, tabela de porte |
OSCs em capitais | 226.055 (24,6%) | fev/2025 | Ipea, tabela 4.2 |
Norte / Nordeste | 68.252 / 224.253 | fev/2025 | Ipea, tabela 4.1 |
Vínculos em entidades sem fins lucrativos | 3.703.881 (6,8% dos empregos) | 2023 | RAIS/MTE: Sumário Executivo 2023 |
Estoque total de empregos formais | 57.132.156 / 59.970.945 | 2024 / 2025 | RAIS/MTE |
Unidades CEMPRE / ENSFIL | 11,3 mi / 1,2 mi (10,3%); 596.259 FASFIL; 2,68 mi ocupados | ano-base 2023 (div. 18/12/2025) | IBGE/Cempre |
Voluntários | 6,5 milhões (3,9% da população +14) | 2016 | PNAD/IBGE (div. 26/03/2018) |
Bases anteriores do mesmo Ipea ajudam a ver a série: 781.921 OSCs em atividade (jul/2020) e mais de 820 mil (2018). O salto para 917.727 não é explosão de criação: é melhoria de cobertura da base de dados.
1.3 O porte: um arquipélago de microorganizações
Quase 3 em cada 4 OSCs brasileiras não têm nenhum empregado formal. A distribuição completa do porte (fev/2025, Ipea) é esta:
Faixa de vínculos formais | Quantidade de OSCs |
|---|---|
Sem nenhum vínculo | 705.052 |
1 a 2 vínculos | 35.658 |
5 a 9 vínculos | 13.052 |
10 a 49 vínculos | 21.202 |
50 a 99 vínculos | 4.394 |
100 a 499 vínculos | 3.918 |
500 ou mais vínculos | 1.098 (0,12% do universo) |
A consequência prática é imediata: recomendações de gestão pensadas para grandes entidades raramente se aplicam diretamente à maioria do setor. Quando um edital exige estrutura de departamento de compliance, ele está falando com 0,12% do universo, e isso precisa ser dito na reunião de pré-edital, não depois.
1.4 Concentração geográfica e perfil setorial
-
Norte: 68.252 OSCs (3,9 por mil); Nordeste: 224.253 (4,1 por mil); Distrito Federal: 6,8 por mil: a maior densidade do país;
-
Capitais concentram 226.055 OSCs, ou 24,6% do total nacional;
-
Perfil por área (Ipea): cultura e recreação 79.380 OSCs; educação e pesquisa 26.148 (sendo 9.222 de educação infantil, 4.129 do fundamental e 1.567 do superior); saúde 15.780, com 73,7% sem pessoal e 3.277 hospitais.
-
🔢 Você sabia? A capital de São Paulo tem 57.612 OSCs, 84% de todas as OSCs de toda a região Norte (que soma 68.252). Uma cidade concentra quase o mesmo patrimônio institucional de nove estados. Isso não é "falta de sociedade civil no Norte": é efeito de sede social, base de CNPJ e histórico de captação, e explica por que editais nacionais com sede em São Paulo têm vantagem estrutural de capilaridade.
Caso 1: Mapa das OSCs/Ipea: a estatística que organiza o campo. O relatório "O Perfil das Organizações da Sociedade Civil no Brasil (2016 to 2025)" cruza CNPJ, CNAE, RAIS e território para mostrar duas coisas que a intuição nega: (i) 705.052 OSCs não têm um único empregado formal, o setor não é de grandes organizações; (ii) São Paulo (capital) tem mais OSCs (57.612) do que toda a região Norte (68.252, 84% do total). É a base para dimensionar editais, dimensionar equipes de fiscalização e desfazer o mito do "setor de grandes ONGs". Publicado em 01/nov/2025, com dados até fev/2025.
Quantas OSCs, afinal? Dependem de quem pergunta. O relatório Ipea cita 917.727 (fev/2025); o portal do Mapa das OSCs já exibiu 972 mil / 644 mil ativas (set/2025) e 960.323 / 618.187 ativas (2026); uma página chegou a anunciar "mais de 879 mil ativas", mas o endereço devolveu erro 404. Números diferentes, recortes diferentes (total × ativas) e bases em atualização contínua. Cite sempre a da fonte que você usou, e nunca some bases.
1.5 Qual número citar no seu relatório
Decida pela pergunta que o seu leitor faz, não pelo número que você tem à mão:
Se a pergunta é... | Cite | Nunca diga |
|---|---|---|
"Quantas organizações existem?" | 917.727 OSCs (Ipea, fev/2025) | "2 milhões de ONGs" sem fonte |
"Quantos empregos o setor gera?" | 3.703.881 vínculos (6,8%): RAIS/MTE, 2023 | Somar RAIS com voluntários |
"Quantos lugares de negócio são?" | 11,3 mi de unidades; 1,2 mi ENSFIL: IBGE/Cempre, base 2023 | Tratar ENSFIL como "ONGs ativas" |
"Quantos voluntários há?" | 6,5 milhões (3,9%): PNAD/IBGE, 2016 | "7,3 milhões" ou "25 milhões" |
"Qual a densidade do setor?" | 4,5 OSCs por mil habitantes (Ipea, fev/2025) | Médias sem denominador informado |
2. Linha do tempo visual dos marcos brasileiros
Antes de ler cada marco isoladamente, veja a espinha dorsal do tema. O diagrama abaixo mostra a sequência dos marcos que criaram, financiaram e reorganizaram a ação privada de interesse público no Brasil:
====================================================================
LINHA DO TEMPO — DA CARIDADE INSTITUCIONAL À REFORMA TRIBUTÁRIA
====================================================================
1498 / 1543 ... Casa-mãe de Lisboa / Santa Casa de Santos (1543)
modelo das misericórdias, de Braz Cubas
|
01/07/1938 ..... Decreto-Lei 525: cria o CNSS
(opina sobre subvenções federais)
|
1942-1946 ...... SENAI (1942), SESI (1943), LBA,
Fundação Leão XIII (1946), SESC (Dec. 9.853/1946)
|
05/10/1988 ..... CF/88: imunidades do art. 150, VI, "b" e "c"
+ imunidade da seguridade social (art. 195, § 7º)
|
07/12/1993 ..... LOAS: cria o CNAS (18 membros)
11/12/1997 ..... Lei 9.532: incentivos fiscais das SFL
15/05/1998 ..... Lei 9.637: OS (contrato de gestão)
23/03/1999 ..... Lei 9.790: OSCIP (termo de parceria)
|
31/07/2014 ..... Lei 13.019 (MROSC): fim do convênio com OSC
| vigência: 23/01/2016 (União, Estados, DF)
| 01/01/2017 (Municípios)
|
16/12/2021 ..... LC 187: CEBAS + imunidade do art. 195, § 7º
2023 ........... EC 132: reforma tributária preserva imunidades
16/01/2025 ..... LC 214: IBS/CBS/IS — art. 9º, II e III
26/12/2025 ..... LC 224: revoga isenções; mantém OS e OSCIP
13/01/2026 ..... LC 227: ITCMD e normas correlatas
====================================================================
HOJE (fev/2025): 917.727 OSCs mapeadas -> 4,5 por mil hab.
====================================================================2.1 Tabela: linha do tempo de marcos legais e institucionais
Data | Marco | O que mudou |
|---|---|---|
1498 / 1543 | Casa-mãe de Lisboa / Santa Casa de Santos | Modelo das misericórdias; base da assistência hospitalar brasileira |
01/07/1938 | Decreto-Lei 525 | Cria o CNSS; opina sobre subvenções federais a entidades privadas |
1942 to 1946 | SENAI, SESI, LBA, Fundação Leão XIII, SESC (Dec. 9.853/1946) | Serviço social corporativo e assistência nacional |
05/10/1988 | CF/88 | Imunidades do art. 150, VI, "b" e "c" e do art. 195, § 7º |
07/12/1993 | LOAS: Lei 8.742 | Institui o CNAS (18 membros: 9 governo + 9 sociedade civil) |
11/12/1997 | Lei 9.532 | Isenções e incentivos fiscais das sem fins lucrativos |
15/05/1998 | Lei 9.637 | Cria a OS e o contrato de gestão |
23/03/1999 | Lei 9.790 | Cria a OSCIP e o termo de parceria |
31/07/2014 | Lei 13.019 (MROSC) + 13.204/2015 | Termo de colaboração, fomento, acordo de cooperação e chamamento público |
27/04/2016 | Decreto 8.726 (alterado pelo Decreto 11.948, de 12/03/2024) | Regulamenta o MROSC na esfera federal |
16/12/2021 | LC 187/2021 | CEBAS + imunidade do art. 195, § 7º; revoga a Lei 12.101/2009 |
2023 | EC 132/2023 | Reforma tributária; mantém imunidades (art. 149-B) |
16/01/2025 | LC 214/2025 | IBS/CBS/IS; art. 9º, II e III: imunidades religiosa, assistencial e educacional; § 4º afasta aquisições |
26/12/2025 | LC 224/2025 | Revoga isenções de IRPJ/CSLL/PIS/COFINS de parte das sem fins lucrativos; mantém OS e OSCIP |
13/01/2026 | LC 227/2026 | ITCMD; altera o CTN e normas correlatas |
2.2 Como usar a linha do tempo na prática
A tabela não é decoreba: cada era responde a uma pergunta típica de edital, de prova e de reunião de conselho.
Era | A pergunta que ela responde | Onde ela aparece |
|---|---|---|
Século XVI a XIX (misericórdias) | Por que saúde e educação concentram a filantropia? | História institucional, museologia, comunicação |
1938 to 1946 (CNSS e serviço social corporativo) | Por que o Estado repassa recurso a entidade privada? | Editais de subvenção, história das políticas sociais |
1988 (CF/88) | Por que a entidade é imune a certos tributos? | Contencioso tributário, planejamento fiscal |
1993 to 1999 (LOAS, OS, OSCIP) | Qual título a entidade pode ostentar? | Qualificação, governança, parcerias |
2014 (MROSC) | Qual instrumento assinar com a prefeitura? | Contratos, chamamento público, prestação de contas |
2021 to 2026 (onda tributária) | O que muda no IBS/CBS/IS e no CEBAS? | Reforma tributária, pareceres, renovação de certificados |
Um detalhe que quase todo mundo erra: o MROSC não nasceu em 2016. A Lei 13.019 é de 31/07/2014; a vigência foi escalonada (23/01/2016 para União, Estados e DF; 01/01/2017 para Municípios) e o regulamento federal veio pelo Decreto 8.726/2016, atualizado pelo Decreto 11.948, de 12/03/2024. Citar a data da vigência como data da lei, ou citar um inexistente "Decreto 8.240/2014", derruba a credibilidade da resposta.
3. Do controle estatal à qualificação: os marcos em leitura
3.1 Origem: irmandades e misericórdias (séculos XVI a XIX)
A caridade institucional brasileira nasce com as irmandades e com o modelo das misericórdias: a Santa Casa de Santos (1543), fundada por Braz Cubas, repete a Casa-mãe de Lisboa (1498) e vira o molde da assistência hospitalar até o século XIX. O ponto histórico importa porque ele explica por que a saúde e a educação concentraram, por séculos, a maior parte da filantropia organizada no Brasil, e por que essas duas áreas seguem no topo das estatísticas.
3.2 Século XX: o Estado descobre que precisa das entidades
O Decreto-Lei 525, de 01/07/1938, institui o Conselho Nacional de Serviço Social (CNSS) e lhe compete "estudar o serviço social e opinar sobre subvenções federais a entidades privadas", é o embrião da relação Estado, entidades que até hoje organiza editais, repasses e prestação de contas. Nos anos 1940 surgem SENAI (1942), SESI (1943), a LBA, a Fundação Leão XIII (1946) e o SESC (Decreto-Lei 9.853/1946): serviço social corporativo e assistência nacional, lado a lado.
3.3 1988: o fundamento constitucional
A Constituição de 1988 consagra as imunidades do art. 150, VI, "b" (livros, jornais, periódicos e papel de impressão) e do art. 150, VI, "c" (entidades de assistência, educação e cultura sem fins lucrativos, vedada a distribuição de resultados) e a imunidade da seguridade social do art. 195, § 7º. Trata-se do alicerce sobre o qual se apoiam, décadas depois, o CEBAS e toda a discussão da reforma tributária.
3.4 1993 to 1999: do controle à qualificação
A LOAS (Lei 8.742, de 07/12/1993) institui o CNAS, 18 membros, metade governo, metade sociedade civil, criando o primeiro grande conselho tripartite de participação social do país. Em seguida, o Estado passa a qualificar em vez de apenas fiscalizar:
- Lei 9.532/1997: isenções e incentivos fiscais das entidades sem fins lucrativos;
- Lei 9.637/1998: cria a OS, com contrato de gestão;
- Lei 9.790/1999: cria a OSCIP, com termo de parceria.
3.5 2014: o MROSC substitui o convênio
A Lei 13.019, de 31/07/2014 (alterada pela Lei 13.204/2015) cria quatro instrumentos e acaba com o "convênio com ONG":
- termo de colaboração: iniciativa da administração pública;
- termo de fomento: iniciativa da própria OSC, com transferência de recursos;
- acordo de cooperação: sem transferência de recursos;
- chamamento público: regra geral de seleção (salvo as exceções dos arts. 29 a 32).
A vigência foi escalonada: 23/01/2016 para União, Estados e Distrito Federal e 01/01/2017 para Municípios. O regulamento federal é o Decreto 8.726/2016, alterado pelo Decreto 11.948, de 12/03/2024; correlata, a Lei 13.800/2019 institui a Lei Geral de Subvenções.
3.6 2021 to 2026: a onda tributária
Os últimos cinco anos foram os mais intensos da história normativa do setor:
- LC 187, de 16/12/2021: regula a certificação CEBAS e a imunidade do art. 195, § 7º; revoga a Lei 12.101/2009; exige no mínimo 60% de serviços ao SUS na área da saúde (art. 9º);
- EC 132/2023: reforma tributária; mantém as imunidades do art. 150, VI (art. 149-B, parágrafo único);
- LC 214, de 16/01/2025 (IBS/CBS/IS): art. 9º, II e III: imunidade para entidades religiosas e templos e para instituições de educação e assistência social sem fins lucrativos; o § 3º remete aos requisitos do art. 14 do CTN;
- LC 224, de 26/12/2025: revoga a isenção de IRPJ/CSLL/PIS/COFINS de parcela das sem fins lucrativos, mantendo-a para OS e OSCIP (com Decreto 12.808/2025, Portaria MF 3.278/2025 e IN RFB 2.305/2025);
- LC 227, de 13/01/2026: ITCMD; altera o CTN e normas correlatas.
O ponto crítico da LC 214/2025 é o § 4º do art. 9º. Ele veta a imunidade das aquisições de bens e serviços pelas entidades imunes. Na prática, a imunidade do "patrimônio, renda e serviços" convive com uma discussão aberta e litigiosa sobre o que a entidade pode comprar sem tributar. Qualquer planejamento fiscal que trate a imunidade como blindagem integral está desatualizado: confira sempre o texto consolidado do art. 9º da LC 214/2025 e a discussão setorial antes de afirmar em parecer.
3.7 Incentivo à doação: os limites verificados
Os limites legais de dedução, confirmados nos dispositivos, são estes:
Hipótese | Limite | Base legal |
|---|---|---|
Doações de pessoa física | até 6% do imposto devido | art. 22 da Lei 9.532/1997, c/c art. 12 da Lei 9.250/1995 |
Fundos do ECA (mesmo teto da PF) | 1% para PJ no lucro real | art. 260 do ECA |
Doações de pessoa jurídica | até 2% do lucro operacional | Lei 9.249/1995, art. 13, § 2º, III |
Limite global em determinados incentivos | 4% | Lei 9.532/1997, art. 6º |
- 🔢 Você sabia? Só 15% do Investimento Social Privado brasileiro usa incentivo fiscal: os outros 85% são filantropia direta, sem contrapartida tributária (Censo GIFE 2024 to 2025, na fala do secretário-geral do GIFE, Cassio França, à Folha de S.Paulo, 09/12/2025). A narrativa de que "o setor existe por causa do incentivo fiscal" é, pelo menos para o volume, minoritária.
Armadilha real de referência normativa neste bloco: (i) o art. 15 da Lei 9.532/1997 trata de isenção, não de limite de doações: quem cita "limite do art. 15" está errado; (ii) a Lei 12.101/2009 foi revogada pela LC 187/2021, mas o art. 30, II, da Lei 13.019/2014 ainda a cita como hipótese de dispensa de chamamento público: texto superado; (iii) o Decreto 8.240/2014 não é o regulamento do MROSC, o regulamento federal é o Decreto 8.726/2016, alterado pelo Decreto 11.948/2024.
3.8 Exemplo resolvido: qual benefício a sua entidade pode alegar
Uma associação de assistência social, sem qualquer qualificação, pergunta ao conselho: "que benefício tributário nós temos?". A resposta correta é construída por camadas, e a ordem das camadas importa:
- Camada constitucional: a CF/88 só atribui imunidade às finalidades essenciais (art. 150, VI, "b" e "c") e a isenção de contribuições da seguridade social (art. 195, § 7º) a quem preencher os requisitos da lei: não existe imunidade automática por ser "ONG";
- Camada da LC 214/2025: a imunidade de IBS/CBS alcança as instituições de educação e assistência social sem fins lucrativos (art. 9º, II e III), mas o § 3º remete ao art. 14 do CTN e o § 4º veta a imunidade das aquisições, o que a entidade compra pode ser tributado;
- Camada do CEBAS: a isenção de contribuições patronais depende de certificação (hoje, LC 187/2021) e de requisitos por área: saúde exige, no mínimo, 60% de serviços ao SUS pela via do art. 9º;
- Camada do incentivo ao doador: é o doador quem deduz, não a entidade: 6% do imposto devido para pessoa física e 2% do lucro operacional para pessoa jurídica, com limite global de 4% em determinados incentivos;
- Camada do MROSC: se houver parceria pública, o que vem é recurso público com plano de trabalho, chamamento e prestação de contas: não é benefício fiscal.
Resposta pronta para o conselho: "Nosso benefício depende da camada: imunidade só sobre o que está ligado ao objeto, CEBAS exige certificação, e o incentivo beneficia quem doa para nós: não a nós diretamente."
4. Panorama Regulatório 2025-2026
A onda tributária da seção 3.6 deixou de ser noticiário em 2026: o que era projeto virou vigência, regulamento e cronograma de transição. Este panorama reúne apenas normas com status verificado nesta pesquisa, o que está pendente no Congresso ou no STF aparece sinalizado como pendência, e o que não foi confirmado em fonte primária é marcado como tal. Nada aqui substitui o texto consolidado no Planalto antes de um parecer.
4.1 Tabela: norma × vigência × impacto na OSC
Norma | Vigência / data | Impacto prático na OSC | Status verificado |
|---|---|---|---|
LC 214/2025 | 16/01/2025; transição 2026 to 2033 | Cria IBS, CBS e Imposto Seletivo; a imunidade vale na saída, não nas aquisições (art. 9º, § 4º); patrocínio com contrapartida sofre IBS/CBS; nota fiscal obrigatória mesmo em operações imunes | Vigente |
LC 224/2025 | 26/12/2025; corte de 10% no IRPJ/II desde 01/01/2026 e nos demais tributos federais desde 01/04/2026 | Redução linear de 10% de todos os incentivos federais; exceções do art. 4º, § 8º (I imunidades; IV investimento aprovado até 31/12/2025; V benefícios de PJ sem fins lucrativos; VII teto quantitativo global; IX Prouni; XII CPRB; XIII TIC) | Vigente; ADI 7.920 pendente no STF |
Decreto 11.948/2024 | 12/03/2024 | Consolida o MROSC: apostilamento ≤ 10%, prestação de contas no Transferegov (art. 55), relatório de execução financeira (art. 56) e divulgação no Portal da Transparência + Mapa das OSC (§ 4º); vigência dos instrumentos ≤ 10 anos; vedação de contrapartida financeira; bens remanescentes à OSC; contas finais em ≤ 150 dias | Vigente |
LC 227/2026 | 13/01/2026 | Cria o CGIBS e disciplina o processo administrativo do IBS | Vigente |
IN RFB 2.307/2026 | 20/02/2026 (data a conferir no DOU) | Revoga o item 26 do Anexo Único: a dedução de doações de PJ a OSCs/OSCIP (2% do lucro operacional) entrou no corte; mantém os itens 32 (assistência médica), 33 (previdência complementar fechada) e 34 (art. 15 da Lei 9.532/1997), além das imunidades beneficentes | Vigente; o FAQ da RFB afirma que o Anexo não é exaustivo e que associações de categoria profissional/econômica não são alcançadas |
LC 235/2026, art. 11 | 27/08/2026 | Reescreve o inciso V do § 8º do art. 4º da LC 224: passa a ressalvar o art. 15 da Lei 9.532/1997 e os arts. 13, IV, e 14, X, da MP 2.158-35/2001: a redação anterior citava as Leis 9.790/1999 e 9.637/1998 | Vigente; PLC 11/2026 tenta restringir o inciso |
Decreto 12.955/2026 | 29/04/2026 | Art. 582: fixa CBS de 0,9% no ano-teste de 2026 | Vigente |
Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 1/2025 | 23/12/2025 | Regras do ano-teste; taxa de prova isenta se cumpridas as obrigações acessórias | Vigente |
O que ainda é pendência, não tratar como fato consolidado: a ADI 7.920 (CNI contra a LC 224, rel. Min. André Mendonça) segue pendente no STF; o PLC 11/2026 tenta restringir o inciso V do § 8º do art. 4º da LC 224; e a consolidação do texto da LC 224 traz dois incisos "V" no § 8º do art. 4º (o antigo, citando as Leis 9.790/1999 e 9.637/1998, e o novo, da LC 235/2026) sem que a revogação do anterior tenha sido confirmada, confira a redação vigente antes de citar.
4.2 O ano-teste de 2026 e o que muda em 2027
Em 01/01 a 31/12/2026 incidem CBS de 0,9% (art. 582 do Decreto 12.955/2026) e IBS de 0,1%, compensados com PIS/COFINS no mesmo período: 2026 é ano de informação e de adaptação de sistema, não de pagamento novo líquido. Em 2027 to 2028 vêm o fim do PIS/COFINS, o IPI a zero (exceto na ZFM) e o Imposto Seletivo; a transição segue até 2033, quando entra a vigência plena do IBS.
Período | O que acontece | Efeito prático para a OSC |
|---|---|---|
2026 | Ano-teste: CBS 0,9% + IBS 0,1%, compensados com PIS/COFINS; cumprir as obrigações acessórias = taxa de prova isenta | Corte de 10% no IRPJ/II desde 01/01 e nos demais tributos federais desde 01/04; manter notas; revisar doações |
2027 to 2028 | Fim do PIS/COFINS; IPI a zero (exceto ZFM); CBS/IBS com alíquota reduzida; Imposto Seletivo | Simular contratos com e sem contrapartida de patrocínio; migrar regimes |
2029 to 2032 | Transição estadual e municipal (redução de ICMS/ISS, ampliação do IBS) | Renegociar reajustes e repasses estaduais e municipais |
2033 | Vigência plena do IBS | Consolidar regime; encerrar simulações |
- 🔢 Você sabia? Em 03/01/2025, o STF (decisão do Min. Flávio Dino na ADPF 854, com a ADI 7688) suspendeu repasses a 13 ONGs, cerca de R$ 142 milhões bloqueados em dez/2024, com CEPIM/CEIS e auditoria em 60 dias, depois que o relatório da CGU mostrou que, de 26 entidades obrigadas a publicar os valores de emendas de 2020 to 2024, só 4 (15%) publicaram adequadamente, 35% de forma parcial e 50% de forma inadequada. Transparência deixou de ser boa prática e virou condição de recebimento.
4.3 Checklist de compliance 2026
Caixa de checagem montada a partir das obrigações e dos alertas verificados do período: imprima e marque antes da reunião de conselho:
- Revisar a política de doações da entidade e comunicar o doador sobre o corte de 10% (LC 224/2025) e sobre a revogação do item 26 pela IN RFB 2.307/2026;
- Guardar no dossiê a tripla defesa da isenção: item 34 do Anexo da IN 2.307/2026 + inciso V do § 8º do art. 4º da LC 224 (redação da LC 235/2026) + FAQ da RFB (Anexo não exaustivo): sem confundir com a dedução, que é do doador;
- Manter notas fiscais e obrigações acessórias em dia em 2026, para não perder a taxa de prova isenta do ano-teste;
- Simular contratos de patrocínio com e sem contrapartida antes de 2027 (fim do PIS/COFINS);
- Acompanhar a ADI 7.920 e o PLC 11/2026 antes de afirmar em parecer que o inciso V está preservado;
- Em termo de fomento ou de colaboração: metas com prazo, cronograma de desembolso, parcela única justificada, publicação no Transferegov e apostilamento ≤ 10%;
- Publicar recebimento e aplicação de emendas parlamentares (ADPF 854 + ADI 7688);
- Fechar contas finais em até 150 dias e registrar no estatuto a destinação dos bens antes de qualquer dissolução (art. 61 do CC; TCU 6107/2025);
- Inventariar descontos associativos no INSS e comprovar autorização, o PDMA (14/05/2025) cobre 9,42 milhões de benefícios de mar/2020 a mar/2025 e a entidade tem 15 dias úteis para devolver via GRU ou comprovar autorização (biometria/assinatura), sob cobrança automática;
- Manter atas de convocação, de gestão e de aprovação de contas: só quem praticou atos de gestão responde (TST, 7ª Turma, RR-100039-53.2019.5.01.0206, 2025).
Como usar o checklist na prática: quem capta doador responde pelos itens tributários, quem assina termo de fomento responde pelos itens de plano de trabalho e a diretoria responde por todos. Rode a lista a cada trimestre e a cada norma nova publicada: em 2026 o calendário de mudança é mensal, não anual, e a defesa que vale é a documentada antes do auto de infração, não depois.
4.4 Exemplo resolvido: quanto o doador perde em 2026
Empresa com lucro de R$ 1.000.000 doa R$ 40.000 a uma OSCIP. O cálculo, em três camadas:
- Limite: 2% do lucro operacional (Lei 9.249/1995, art. 13, § 2º, III) = R$ 20.000 dedutíveis, economia ≈ R$ 6.800;
- Corte de 10%: pelo art. 4º, § 4º, III, da LC 224, a redução de base vale por 90% em 2026 → R$ 18.000 dedutíveis e economia ≈ R$ 6.120;
- Onde a entidade se defende: a IN RFB 2.307/2026 revogou o item 26, que preservava o benefício do doador. O que a entidade manteve é o item 34 (art. 15 da Lei 9.532/1997): que protege a isenção dela, não a dedutibilidade dele.
Ação: revisar a política de doações, comunicar o doador com números na mão e acompanhar a ADI 7.920 antes de prometer recuperação fiscal a quem doa.
4.5 Jurisprudência 2024 to 2026 que o conselho precisa conhecer
O controle externo virou a principal vara das OSCs no período. Cada linha abaixo já tem medida prática correspondente no checklist da seção 4.3:
Tribunal / processo | Decisão | Tese | Medida prática |
|---|---|---|---|
TCU 1355/2025-Plenário (18/06/2025) | Cautelar inaudita altera pars suspendendo repasses do MTE | Fomento sem metas cronológicas (art. 22, II: IV, Lei 13.019/2014) e sem cronograma (art. 42, III), com parcela única | Assinar só com metas, cronograma e desembolso fracionado |
TCU 2753/2025-1ª Câmara | Improcedente por não esgotadas as vias (IN-TCU 98/2024), mas apurou dano de R$ 15.062.152 em 7 de 10 entidades | Monitoramento "incipiente" de emendas | Publicar recebimento e aplicação das emendas |
TCU 6107/2025-1ª Câmara | Associação extinta antes da citação: citação nula e arquivamento | Sem destinação do patrimônio (art. 61 do CC) não há sucessora: débito e multa ficam com os dirigentes | Formalizar dissolução com destinação dos bens |
TCU 6633/2025-1ª Câmara | Responsabilização de instituto, empresas e dirigentes | Fachada + sub-rogação integral; dano apurado pela "Teoria do Produto Bruto Mitigado" | Vedada sub-rogação do objeto; prestação de contas em patrocínios |
STJ, Informativo 893 (Inq 1.913/DF, 17/06/2026) | Denúncia recebida por peculato-desvio (art. 312 do CP): R$ 6.090.142 dos R$ 7 milhões do acordo MPT×Itaú | Laudos e extratos bastam para justa causa | Prestação de contas idônea e segregação gestão×contabilidade |
STJ, 3ª e 4ª Turmas (2024 to 2025) | Vedada a recuperação judicial de associação e fundação sem fins lucrativos | Lei 11.101/2005 alcança só empresários (arts. 1º e 2º); exceção das cooperativas médicas (ADI 7.442/STF) | Crise via acordo, reestruturação ou dissolução limpa |
TST, 7ª Turma (RR-100039-53.2019.5.01.0206, 2025) | Ex-conselheiros excluídos da execução trabalhista | Só responde quem pratica gestão ou aprova contas | Atas, convocações e aprovação de contas documentam a defesa |
STJ, REsp 1.812.929/DF | Desconsideração da personalidade limitada a quem exerceu cargo diretivo | Art. 50 do CC exige abuso do agente | Filiação nominal não é gestão |
MPF (Rec. 18/2025) + acordo INSS, MPF, DPU, OAB, AGU | Plano operacional do PDMA (14/05/2025) | Desconto de mensalidade associativa no INSS só com autorização | 15 dias úteis para devolver via GRU ou comprovar autorização |
4.6 Projetos de lei com impacto nas OSCs: status verificado
PL | Conteúdo | Status verificado | Leitura |
|---|---|---|---|
PL 736/2022 | CNO sob gestão do MJSP | Rel. Dep. Reimont, CASP, 15/04/2025; conclusivo | Manter dados, estatuto e relatórios atualizados |
PL 5.198/2023 | Restrições a recursos do exterior | Em tramitação; PL 1.398/2024 desapensado (05/07/2024) | Risco para a captação internacional |
PL 6047/2023 | CPI das ONGs | Aprovado na CTFC em 26/03/2025; aguarda relator na CCJ | Maior escrutínio e cobrança de transparência |
PLC 11/2026 | Restringir o inciso V do § 8º do art. 4º da LC 224 | Em tramitação | Põe em risco a defesa construída pela LC 235/2026 |
Status dos PLs verificado por busca legislativa; as URLs da Câmara e do Senado não foram arquivadas nesta pesquisa: confirme o status no portal oficial antes de citar em parecer.
Armadilhas de compliance 2025 to 2026 que já derrubaram parceria, repasse e entidade:
- Fomento sem metas e sem cronograma: o TCU (Ac. 1355/2025-Plenário, 18/06/2025) suspendeu inaudita altera pars repasses do MTE em termos de R$ 15,77 mi e R$ 4,22 mi pagos em parcela única, assine só com metas cronológicas (art. 22, II, IV, da Lei 13.019/2014), cronograma de desembolso (art. 42, III) e aderência ao plano de trabalho;
- Associação e fundação não pedem recuperação judicial: o STJ (3ª e 4ª Turmas, 2024 to 2025) firmou que a Lei 11.101/2005 alcança só empresários: exceção das cooperativas médicas (ADI 7.442/STF). A saída é acordo, reestruturação ou dissolução limpa;
- Desconto de mensalidade associativa no INSS sem autorização: o acordo INSS: MPF: DPU: OAB: AGU criou o PDMA (14/05/2025), com 9,42 milhões de benefícios contestáveis (mar/2020: mar/2025) e 15 dias úteis para a entidade devolver via GRU ou comprovar autorização, sob pena de cobrança automática;
- Emenda parlamentar sem publicação: na ADPF 854, 13 ONGs tiveram repasses suspensos em 03/01/2025 (R$ 142 mi), com CEPIM/CEIS;
- Ano-teste sem obrigações acessórias: descumpri-las em 2026 faz a entidade perder a taxa de prova isenta do Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 1/2025.
Como responder
Exercício de preenchimento com 4 lacunas. Digite as palavras que faltam e verifique a resposta.
Complete o quadro do ano-teste da reforma tributária e da regulamentação de benefícios em 2026:
Em 2026, o ano-teste incide CBS de espaço% e IBS de espaço%, compensados com PIS/COFINS no mesmo período. Já a IN RFB 2.307/2026 revogou o espaço do Anexo Único, tirando do rol preservado a dedução de doações de PJ a OSCs, e manteve o espaço, que preserva a isenção de IRPJ/CSLL/COFINS do art. 15 da Lei 9.532/1997.
Banco de Palavras, arraste as palavras para os espaços acima:
5. Financiamento I, o Investimento Social Privado (GIFE)
5.1 A série de 13 anos
O Censo GIFE 2024 to 2025 (12ª edição, divulgado em 08/dez/2025) mede o Investimento Social Privado (ISP), o total investido por empresas, fundações e institutos. A série histórica:
Ano | ISP | Observação |
|---|---|---|
2019 | R$ 4,0 bilhões | referência pré-pandemia |
2020 | R$ 6,7 bilhões | recorde da série, pico atípico da pandemia |
2022 | R$ 5,3 bilhões | retomada |
2023 | R$ 5,4 bilhões | estabilidade |
2024 | R$ 5,8 bilhões | 2º maior da série, atrás só de 2020 |
O GIFE reúne ~170 instituições (completou 30 anos em 2025); a edição de 2024 to 2025 teve 138 respondentes, ou 84% das associadas. Atenção à base: ~170 associadas (comunicação institucional) e 138 respondentes = 84% (Censo) são números de bases diferentes: não é contradição, é metodologia.
5.2 Do que o ISP é feito
- Educação é a principal área de atuação de 67% das organizações;
- agenda climática: R$ 368 milhões = 6% do ISP, contra 3% da média global, o Brasil doa o dobro do mundo em clima;
- apoio emergencial saltou de R$ 122 milhões (2022) para R$ 786 milhões (2024);
- repasses a OSCs: de 64% para 72% das instituições e de R$ 350 milhões para R$ 1,3 bilhão em 8 anos;
- empresas mantenedoras = 45% do total; o ISP independente (não vinculado a mantenedora) passou de R$ 354 milhões (2014) para R$ 1,1 bilhão (2024);
- governança: conselhos com 66% de homens e 89% de pessoas brancas.
Caso 2: Censo GIFE 2024 to 2025: o repasse que virou tendência. O achado mais transformador do Censo é a curva dos repasses a organizações da sociedade civil: 64% → 72% das instituições e R$ 350 milhões → R$ 1,3 bilhão em oito anos. Tradução: as empresas brasileiras deixaram de executar diretamente e passaram a financiar terceiros, o que muda o mercado de captação e exige da OSC relatório, indicador e auditoria na mesma proporção. O mesmo estudo expõe o déficit de diversidade da governança (66% de homens, 89% de pessoas brancas nos conselhos), colocando diversidade, equidade e inclusão como pauta de governança, e não de marketing.
Divergência dentro da mesma edição do Censo. O apoio emergencial de 2022 aparece como R$ 122 milhões (Folha de S.Paulo, 09/12/2025) e como R$ 112 milhões (Observatório 3º Setor, 13/12/2025): mesma edição do Censo GIFE, números diferentes divulgados por veículos distintos. Em sala de aula, prefira a formulação "cerca de R$ 120 milhões em 2022, chegando a R$ 786 milhões em 2024" e cite a fonte que você efetivamente leu.
5.3 A tabela de financiamento: GIFE e IDIS lado a lado
Indicador | Valor | Ano | Fonte |
|---|---|---|---|
Investimento Social Privado | R$ 5,8 bi (recorde: R$ 6,7 bi em 2020) | 2024 | Censo GIFE 2024 to 2025 (div. 08/12/2025) |
Parcela do ISP com incentivo fiscal | 15% | 2024 | GIFE, apud Folha, 09/12/2025 |
Principal área de atuação | Educação: 67% das organizações | 2024 | Censo GIFE 2024 to 2025 |
Agenda climática | R$ 368 mi = 6% (média global 3%) | 2024 | Censo GIFE 2024 to 2025 |
Apoio emergencial | R 786 mi | 2022 → 2024 | Censo GIFE, apud Folha |
Repasses a OSCs | 64% → 72% das instituições; R 1,3 bi | 8 anos até 2024 | Observatório 3º Setor, 13/12/2025 |
Volume de doações individuais | R$ 24,3 bilhões (maior da série) | 2024 | IDIS/Ipsos: Doação Brasil 2024 |
Fidelidade às mesmas instituições | 69% (2015) → 55% (2020) → 49% | até 2024 | IDIS/Ipsos |
Desafio nº 1 das ONGs | 66%: sustentabilidade financeira; média de 3,9 fontes de receita | jan/2026 | IDIS + CAF: Panorama das ONGs: capítulo Brasil |
Doadores no Brasil | 62% → 59% | 2024 → 2025 | CAF: World Giving Report |
Doação como % da renda | 0,93% (global: 1,04%) | 2024 | CAF/IDIS: Giving in Brazil 2025 (n=998) |
5.4 Exemplo resolvido: ler a série do ISP sem se enganar
Um conselheiro mostra a manchete "ISP caiu desde 2020" e pergunta se o setor está em declínio. A leitura correta é feita em três passos:
- Identifique o pico atípico: 2020 foi R$ 6,7 bilhões, contra R$ 4,0 bilhões em 2019: salto de pandemia, não tendência estrutural;
- Compare com a base correta: 2024 (R$ 5,8 bi) contra 2019 (R$ 4,0 bi) representa alta real de cerca de 45% em cinco anos;
- Separe os fenômenos: o ISP (empresas e fundações, GIFE) e a doação individual (IDIS) são séries distintas: em 2024, as duas somaram resultados fortes (R$ 5,8 bi e R$ 24,3 bi respectivamente).
Conclusão para o conselho: não há declínio; há normalização após o pico de 2020 com crescimento real frente a 2019. Regra geral: nunca compare ano com ano isolados sem olhar a série completa e o evento que distorceu um deles.
6. Financiamento II: a doação individual no Brasil
6.1 O recorde de 2024
A Pesquisa Doação Brasil 2024 (IDIS/Ipsos, 4ª edição, divulgada em 06/ago/2025, com 1.500 entrevistas e margem de erro de 2,5 pontos percentuais) registrou R$ 24,3 bilhões em doações individuais, o maior valor da série, +64% frente a 2022 corrigido pela inflação (R$ 14,8 bilhões em 2022).
Mas os detalhes contam outra história:
- 78% dos brasileiros doaram algo em 2024: eram 84% em 2022;
- 43% doaram dinheiro a ONGs ou campanhas;
- a mediana anual de doação subiu de R$ 300 para R$ 480;
- 81% confiam na instituição escolhida; 86% escolhem a causa com cuidado; 83% buscam informação antes de doar (eram 75% em 2022);
- 49% já deixaram de doar após notícias negativas sobre uma instituição;
- fidelidade caiu de 69% (2015) para 49% (2024) e a recorrência mensal de 44% para 39%.
A síntese é um paradoxo: mais dinheiro, de menos gente, com menos repetição.
6.2 As causas mudaram de lugar (2022 × 2024)
Causa | 2022 | 2024 | Variação |
|---|---|---|---|
Crianças / causa infantil | 46% | 32% | −14 p.p. |
Saúde | 30% | 26% | −4 p.p. |
Combate à fome | 29% | 21% | −8 p.p. |
Situações emergenciais | 13% | 30% | +17 p.p. |
Redes que mais influenciam a decisão de doar (2024): religiosos ou comunitários 43%, família e amigos 41%, campanhas e TV 20%, redes sociais 15% (Instagram). Fonte: IDIS/Ipsos, Doação Brasil 2024.
Sobre emergências, dois números se completam: 50% doaram para causas emergenciais, mas apenas 10% doou exclusivamente para elas, e 60% desse dinheiro foi parar fora do estado do doador: a solidariedade nacional pulou as fronteiras estaduais.
Caso 3: Pesquisa Doação Brasil 2024: confiança como ativo escasso. Quatro edições (2015 to 2024) permitem ler a curva completa. O paradoxo, recorde de volume (R$ 24,3 bi) com queda de participação (84% → 78%), queda de fidelidade (69% → 49%) e troca de causas (infância −14 p.p.; emergências +17 p.p.), virou roteiro de captação: o doador brasileiro ficou criterioso e esporádico. A resposta que os dados sugerem não é "pedir mais vezes", é merecer a próxima doação: 81% confiam quando conhecem a instituição e 43% doariam sabendo o destino do recurso.
"A causa religiosa lidera o ranking de doações" é uma premissa não confirmada. O ranking de causas de 2024 é infância, saúde, fome e emergências. O que aparece com 43% é religião ou comunidade como REDE DE INFLUÊNCIA; isto é, por onde a decisão de doar circula, não o destino final do dinheiro. Trocar influência por destino é o erro de leitura mais comum desta pesquisa.
6.3 Benchmark internacional
O World Giving Report (CAF, jan/2025, 101 países, n=998 no Brasil) mostra 27% de brasileiros que doaram dinheiro e doação média de 0,93% da renda, contra 1,04% da média global. Entre quem quis doar mais: 43% quer saber o destino do recurso, 40% os resultados e 38% como a organização é conduzida. E os doadores no país recuaram de 62% (2024) para 59% (2025).
6.4 Exemplo resolvido, o paradoxo em três frases para o conselho
Reunindo os dados do Censo GIFE e da Pesquisa Doação Brasil, o diagnóstico do financiamento privado brasileiro em 2024 cabe em três frases, e cada uma delas vira uma decisão:
- "Mais dinheiro, menos gente." O volume cresceu (R$ 24,3 bi, +64% em termos reais), mas a participação caiu (84% → 78%) e os doadores recuaram no indicador global (62% → 59%). Decisão: a meta deixa de ser "aumentar o ticket médio" e passa a ser recrutar e reter.
- "Mais critério, menos lealdade." 83% pesquisam antes de doar (75% em 2022) e a fidelidade caiu de 69% (2015) para 49% (2024). Decisão: transparência com destino do recurso e resultado verificável entram no orçamento como produto, não como despesa administrativa.
- "Causas que mudam de lugar." Emerências saltaram de 13% para 30% enquanto infância caiu de 46% para 32%. Decisão: tenha um protocolo de resposta a emergências (captação relâmpago com prestação de contas em dias) sem abandonar a causa de longo prazo: 59% acompanham a ONG após a emergência e 66% pretendem manter a doação.
7. Pix, plataformas e campanhas: o dinheiro em movimento
7.1 A infraestrutura que barateou a doação recorrente
O Pix movimentou R$ 35,36 trilhões em 2025, em 79,8 bilhões de transações (+33,6%). Para o setor, a consequência não é cosmética: a doação recorrente deixou de exigir boleto, débito autorizado ou cartão: caiu a fricção e o custo por transação.
- 🔢 Você sabia? O Pix superou 79 bilhões de transações em um único ano (2025): mais de 2 transações por habitante por mês. Campanhas de doação recorrente que antes morriam na etapa de "cadastro do cartão" hoje se resolvem em dois toques.
7.2 Digitalização e IA generativa
A TIC OSFIL 2025 (Cetic.br, divulgada em 07/jul/2026) aponta que um terço das organizações sem fins lucrativas no Brasil já usa IA generativa. É adoção precoce para um setor historicamente defasado em tecnologia, e, ao mesmo tempo, um divisor de águas: quem não tem processo, dado e governança para usar IA, multiplica ruído, não produtividade.
7.3 Caso 4, Dia de Doar: a campanha brasileira do GivingTuesday
Criado nos EUA em 2012 pelo 92nd Street Y com a UN Foundation, chega ao Brasil em 2013 como Dia de Doar, organizado pela ABCR, sempre na primeira terça-feira após a Black Friday (12ª edição: 02/12/2025). Os números da edição de 2024:
Indicador | Valor (2024) |
|---|---|
Volume captado em 16 plataformas parceiras | R$ 5.035.263,79 (Abacashi, Benfeitoria, Catarse, iFood e outras) |
Doações internacionais | USD 75.366 de 1.434 doadores |
Empresas envolvidas | 62 |
Monumentos iluminados | 63 |
Menções de imprensa | 895, com valor equivalente a R$ 74 milhões |
Referência global: EUA 2025, US$ 4 bilhões (+13%), 38,1 milhões de participantes e ticket médio de US$ 255. A lição para a ONG brasileira: campanha de data não substitui relacionamento, mas é o maior pico de aquisição de novos doadores do calendário.
"Dia Mundial das ONGs com origem brasileira" não existe. A data internacional é o World NGO Day, 27 de fevereiro, de origem não brasileira. A campanha brasileira é o Dia de Doar, desde 2013. Confundir as duas é comum em material institucional desatualizado.
7.4 O calendário de captação que os números autorizam
Combinando os dados desta seção com a curva de causas da seção 6, um calendário realista de captação tem três picos e um piso contínuo:
- Pico 1: final de ano / Dia de Doar (dezembro): maior pico de aquisição do calendário brasileiro; a campanha de 2024 movimentou R$ 5.035.263,79 em 16 plataformas e mobilizou 62 empresas e 63 monumentos iluminados;
- Pico 2, emergências: as causas emergenciais chegaram a 30% das doações em 2024 (eram 13% em 2022), com 60% do recurso indo para fora do estado do doador, mantenha um protocolo de resposta rápido, com página pronta e prestação de contas enxuta;
- Piso contínuo: recorrência via Pix: a recorrência mensal caiu de 44% para 39%, mas a infraestrutura do Pix (R$ 35,36 trilhões movimentados em 2025) derrubou o custo de manter um doador recorrente ativo;
- Aquisição por influência: 43% decidem pela rede religiosa ou comunitária, 41% pela família e amigos, 20% por campanhas e TV e 15% pelas redes sociais, o orçamento de influência deve espelhar essa ordem, e não a ordem que a equipe acha "moderna".
8. Trabalho, emprego e voluntariado no setor
8.1 Emprego formal: 3,7 milhões de vínculos
Segundo a RAIS/MTE, as entidades sem fins lucrativos passaram de 3.551.726 vínculos (2022) para 3.703.881 (2023), alta de +4,3%: cerca de 6,8% dos 54.706.385 empregos formais do país. O estoque total de empregos formais no Brasil foi de 57.132.156 (2024) e 59.970.945 (2025), alta de 5,0%.
O contraste com a seção 1 é o achado central da lição: 3,7 milhões de vínculos convivem com 705.052 OSCs sem nenhum vínculo. O setor tem bolso ocupacional formal concentrado em poucas instituições e uma maioria absoluta de organizações sem folha.
8.2 Voluntariado
A PNAD/IBGE registra 6,5 milhões de voluntários em 2016: 3,9% da população com 14 anos ou mais. É o último dado nacional consistente da série.
Números de voluntariado que NÃO devem ser usados como fato: a estimativa de "7,3 milhões de voluntários (4,2%)" não foi confirmada nesta pesquisa, o dado verificado é 6,5 milhões (3,9%) em 2016. Se a sua audiência pedir um número mais recente, diga que a série não foi atualizada na fonte consultada; não invente tendência. O mesmo vale para a afirmação de que "a causa religiosa lidera o ranking de doações", não confirmada; em 2024 o ranking é infância, saúde, fome e emergências (religião aparece apenas como rede de influência, 43%).
8.3 Sustentabilidade: o desafio nº 1
O Panorama das ONGs: capítulo Brasil (IDIS + Charities Aid Foundation, jan/2026, com 170 lideranças) aponta que 66% consideram a sustentabilidade financeira o desafio mais urgente, com média de 3,9 fontes de receita por organização, e os doadores individuais na liderança das origens de recurso.
- 🔢 Você sabia? A fidelidade do doador caiu de 69% (2015) para 49% (2024) e a doação recorrente mensal de 44% para 39%, mesmo com a mediana anual subindo de R$ 300 para R$ 480 (IDIS/Ipsos). O doador brasileiro não ficou mais pobre: ficou mais seletivo.
8.4 Diversificação na prática: a regra das 3,9 fontes
A média de 3,9 fontes de receita por organização (Panorama das ONGs: Brasil, jan/2026) não é um número decorativo: é o teste de sobrevivência do setor. Um inventário honesto da sua entidade deve listar, no mínimo, os cinco lugares de onde o dinheiro pode vir:
Fonte potencial | Sinal de que está presente | Risco típico |
|---|---|---|
Doador individual | Recorrência mensal ativa e base própria de contato | Fidelidade em queda (69% → 49%) |
Empresa mantenedora | Contrato plurianual de apoio | 45% do ISP vem de mantenedoras: concentração |
Recurso público (MROSC) | Termo de colaboração ou fomento vigente | Exige chamamento, prazos e sanções |
Campanha de data (Dia de Doar) | Pico de captação em dezembro | Pico não substitui base |
Geração própria (serviços, venda) | Receita compatível com o objeto | Vedação de distribuição de resultados segue valendo |
Se duas linhas desse quadro estão vazias, você não tem 3,9 fontes: tem 2. E é exatamente nesse ponto que 66% das lideranças apontam o desafio mais urgente do setor.
9. Filantropia de periferia: potencial imenso, acesso quase nulo
O estudo "Periferias e Filantropia" (Iniciativa PIPA + Instituto Nu, publicado em 30/mar/2023) cobriu iniciativas de favelas, aldeias, sertões, quilombos e assentamentos, cerca de 90% dos respondentes, e retratou um setor paralelo, pobre em recurso e rico em operação:
Achado | Valor |
|---|---|
Viver com menos de R$ 5 mil por ano | 31% |
Gestores com mais de um emprego | 89% |
Equipe voluntária | 58% |
Dificuldade para acessar financiamento | 95% |
Se identificam como negros | 74,1% |
Mulheres | 68% |
Se identificam como coletivos | 41,8% |
Se declaram OSCs | 12,2% |
O achado estrutural é a linha de baixo: 41,8% são coletivos, mas só 12,2% se declaram OSCs, e os editais exigem CNPJ. A exigência de qualificação jurídica, pensada para prestar contas, transformou-se em barreira de entrada para quem organiza território sem estrutura formal.
Caso 5: Periferias e Filantropia: quando o edital vira barreira. A inadequação entre formato do edital e formato real das organizações gerou a carta aberta à filantropia brasileira (2022, com mais de 40 assinaturas). No ano da carta, mais de 2 mil organizações periféricas foram apoiadas: três vezes o número de 2019. O número prova que não falta capacidade operacional no território: falta linha de financiamento compatível com quem é coletivo, voluntário e informal.
Diversidade não é pauta decorativa neste tema. 74,1% de pessoas negras e 68% de mulheres na coordenação das iniciativas periféricas, contra conselhos com 66% de homens e 89% de pessoas brancas no ISP (Censo GIFE 2024 to 2025): quem decide o dinheiro e quem executa o trabalho no território são populações diferentes. Qualquer estratégia de responsabilidade social ou de repasse de recursos que não enxergue essa assimetria perpetua a barreira descrita pelo estudo.
9.1 Se a sua organização é coletivo: um roteiro de formalização
Os dados do estudo desenham um roteiro objetivo para quem está dos 41,8% (coletivos) e quer chegar aos 12,2% (OSCs) sem perder a operação de território:
- Diagnóstico de acesso: 95% relatam dificuldade de financiamento, o primeiro passo é mapear quais editais, fundos e plataformas sua organização deixa de disputar por falta de CNPJ, estatuto ou escrituração;
- Escolha da forma jurídica: associação é a porta mais acessível do direito privado sem fins lucrativos (não exige patrimônio inicial nem escritura pública), detalhamento na Lição 4, Estruturas Legais de ONGs no Brasil;
- Regularização documental: estatuto registrado, CNPJ ativo, conta bancária em nome da entidade e escrituração pelas normas brasileiras de contabilidade: sem isso, nenhuma prestação de contas se sustenta;
- Gestão de pessoas: 89% dos gestores têm mais de um emprego e 58% da equipe é voluntária: formalize o que é vínculo e reconheça formalmente o que é voluntariado, para não misturar folha, responsável civil e dedicação;
- Captação gradual: comece por doação individual e campanha de data (sem exigência de título), avance para fundos e empresas mantenedoras e só então para recurso público, que carrega o regime de parcerias mais exigente;
- Narrativa de território: 31% vivem com menos de R$ 5 mil por ano e 74,1% se declaram negros; isso é contexto de atuação, e a transparência sobre ele fortalece, não enfraquece, a credibilidade perante financiadores.
10. Desafios × oportunidades
A leitura mais produtiva do contexto brasileiro não é a lista de problemas, e sim o cruzamento problema ↔ evidência ↔ resposta:
Desafio | Evidência | Oportunidade | Evidência |
|---|---|---|---|
Sustentabilidade financeira | 66% apontam como desafio nº 1 (IDIS/CAF, jan/2026) | Diversificação de fontes | Média de 3,9 fontes; doador individual já é a principal origem |
Base de doadores encolhendo | 62% → 59% (CAF); 84% → 78% (IDIS) | Ticket em alta | Mediana R 480; total +64% corrigido |
Desconfiança | 49% pararam de doar por notícias negativas | Transparência como produto | 81% confiam quando conhecem a instituição; 43% doariam sabendo o destino |
Fidelidade em queda | 69% → 49%; recorrência 44% → 39% | Doação emergencial converte | 59% acompanham a ONG após emergência; 66% pretendem manter |
Concentração geográfica | Norte + Nordeste = 31,8% das OSCs | Filantropia de território | 31% das orgs de periferia vivem com menos de R$ 5 mil/ano |
Porte mínimo e formalização | 705.052 OSCs sem vínculo; 58% das orgs de periferia são voluntárias | Editais mais flexíveis | 41,8% são coletivos, mas só 12,2% se declaram OSCs |
Custo de captura de recurso público | MROSC exige chamamento, prestação de contas e sanções | Reforma tributária reduz incerteza | Imunidade mantida no art. 9º da LC 214/2025; 15% do ISP usa incentivo |
Digitalização desigual | 1/3 das OSCs usa IA generativa | Pix e plataformas | R$ 35,36 tri movimentados em 2025 |
Três leituras estratégicas que a tabela autoriza:
- A transparência virou produto. 43% doariam sabendo o destino e 49% já puniram instituição por notícia negativa: relatório, prestação de contas e comunicação de resultado deixaram de ser custo administrativo para serem ativos de captação.
- O crescimento está no indivíduo, não no incentivo fiscal. Com apenas 15% do ISP usando incentivo e R$ 24,3 bilhões vindo de doação individual, a capacidade de relacionamento com doador vale mais que a otimização tributária isolada.
- A fronteira de expansão é territorial. Periferia, Norte e Nordeste concentram população e organizações com 95% de dificuldade de acesso a recurso: quem resolver o problema do edital para coletivos acessa um mercado de causas subatendido.
11. Panorama de ONGs no Brasil Através de Casos
Toda média desta lição (seções 5 a 8) só ganha sentido quando aplicada a organizações reais. Os cinco casos abaixo foram conferidos em demonstrações financeiras, relatórios anuais, páginas de transparência ou cadastro na Receita Federal, e o que não se confirmou em fonte primária aparece sinalizado ao final da seção. Cada caso ilumina uma faceta do contexto brasileiro: financiamento, governança e escala.
Três achados transversais antes dos casos:
- No recorte brasileiro predomina a associação privada: seis dos sete casos brasileiros são associações e nenhum é OS, a percepção de que "OS é o terceiro setor" não se confirma (ver a Lição 4, Estruturas Legais de ONGs no Brasil);
- Nenhuma das onze organizações pesquisadas depende majoritariamente de verba pública: no recorte brasileiro, o Todos Pela Educação nem sequer a recebe; o recurso público existe e importa, mas não é o sustentáculo;
- Concentração de fonte é o risco nº 1 dos balanços: Fundação Itaú com 93% de receitas financeiras (2024), Instituto Ayrton Senna com 62% em royalties de marca (2024) e Instituto Sou da Paz com 65% vindo de fundações do exterior (2022).
11.1 Tabela: natureza jurídica × financiamento × escala
Caso | Natureza jurídica (verificada) | Fonte dominante (% e ano) | Receita declarada | Escala declarada |
|---|---|---|---|---|
Fundação Itaú (Itaú Social) | Fundação privada, com Conselho Curador heterônomo | Receitas financeiras: 93% (2024) | R$ 444,2 mi (2024) | 5,16 mi de pessoas; 20,8 mil escolas; 3,2 mil municípios (2024) |
Instituto Ayrton Senna | Associação privada (natureza 399-9; CNPJ 00.328.072/0001-62) | Royalties de marca e imagem: 62% (2024) | R$ 41,738 mi (2024) | Investiu R$ 47,378 mi em 2024; PL R$ 273,4 mi |
Todos Pela Educação | Associação de fins não econômicos (CNPJ 10.477.478/0001-60) | Doações de PJ e PF: 92% (2024) | R$ 26.082.377 (2024) | Educação Já Municípios cobre 62% das matrículas (2024) |
Instituto Sou da Paz | Associação sem fins lucrativos (recusou a forma de fundação) | Fundações do exterior: 65% (2022) | R$ 12.792.835 (2022) | 6 estados, 3.300 policiais e 225 mil armas analisadas (2025) |
Gerando Falcões | Associação privada (CNPJ 18.463.148/0001-28, aberto em 25/06/2013) | Filantropia + negócios sociais (não apurável: sem balanço público) | Receita não publicada | 42 mil qualificados (2025); 23 mil formados (2024) |
11.2 Cinco casos brasileiros em detalhe
Caso 6: Fundação Itaú / Itaú Social: o patrimônio que sustenta a operação. Fundação privada instituída pelo Itaúsa e administrada por Conselho Curador heterônomo (membros do Itaúsa e do Itaú), diretoria de 6 a 15 membros não remunerados e Conselho Fiscal. Em 2024: receitas de R$ 444,2 mi (financeiras R$ 414,4 mi = 93%, doações R$ 14,6 mi, operacionais R$ 15,1 mi), despesas de R$ 307,3 mi (projetos R$ 181,7 mi), superávit de R$ 136,8 mi e patrimônio líquido de R$ 5,54 bi; indicador público limita custos administrativos a 5% do investido; o FIA 2024 distribuiu R$ 18,8 mi do 1% do IR para 40 projetos. Escala: R$ 297 mi investidos, 5,16 milhões de pessoas, 95 mil turmas, 20,8 mil escolas, 3,2 mil municípios e R$ 19,9 mi mobilizados para OSCs. O que revela no Brasil: patrimônio rendedor dá autonomia: a doação é complemento de projeto, não sustentáculo da operação. É o retrato oposto ao diagnóstico da seção 8.3, em que 66% das lideranças apontam sustentabilidade como desafio nº 1: quem constrói ativo de longo prazo troca ansiedade de captação por programação.
Caso 7: Instituto Ayrton Senna: a fonte previsível que é também o risco. Associação privada (CNPJ aberto em 02/12/1994), 30 anos em 2024. Receita operacional de R$ 41,738 mi em 2024 contra R$ 64,816 mi em 2023; a composição é royalties de marca e imagem de R$ 25,971 mi (62%), R$ 11,724 mi de PJ e R$ 4,044 mi de PF. As despesas de R$ 47,378 mi geraram déficit de R$ 5,640 mi, coberto por receitas financeiras de R$ 24,060 mi; o patrimônio líquido é de R$ 273,4 mi, com R$ 265,4 mi em títulos. Investiu R$ 47,378 mi em 2024 (P&D R$ 14,8 mi; advocacy R$ 7,2 mi); em 2025 a receita foi de R$ 45,879 mi. Governança com CEO, vice e auditor independente; usa exclusivamente a Lei Rouanet. O que revela no Brasil: a receita única e previsível é o sonho de captação, e, ao mesmo tempo, o risco dominante: 62% da receita amarrada a um ativo intangível ligado a uma pessoa derruba tudo se o contrato acabar. Confirma em números a regra das 3,9 fontes da seção 8.4. Sinalização de fonte: a Receita classifica a entidade como associação (399-9); textos que a chamam de "OS/OSCIP" ou "fundação" não conferem com o cadastro, prevalece a Receita.
Caso 8: Todos Pela Educação: advocacy sem um centavo de verba pública. Associação de fins não econômicos fundada em 07/09/2007, independente, suprapartidária e não receptora de recursos públicos. Em 2024 movimentou R$ 26.082.377 sem restrição (doações R$ 24,1 mi e serviços voluntários R$ 1,84 mi), mais R$ 453 mil de receitas financeiras, com superávit de R$ 4,66 mi, caixa de R$ 17,5 mi aplicado a 15,40% a.a. e patrimônio líquido de R$ 16,9 mi. Governança: Assembleia Geral, Conselho de Administração e auditoria independente anual. Produto: agenda Educação Já (13 temas), Educação Já Municípios cobrindo 62% das matrículas (2024) e o Anuário da Educação Básica (12ª ed., 2025). O que revela no Brasil: advocacy é financiável: R$ 26,1 milhões de doação privada para influenciar política pública, sem depender de quem é cobrado pela política. A independência de financiamento é pré-condição de credibilidade para criticar o governo que se quer influenciar (o mesmo racional da recusa de fundos da UE pela MSF desde 2016).
Caso 9: Instituto Sou da Paz: quando o doador estrangeiro vira risco. Associação criada em jan/1999 a partir da campanha de desarmamento de 1997: os fundadores recusaram a forma de fundação; tem selo de interesse público do Ministério da Justiça (MJ) e auditoria da KPMG. Em 2022 a receita foi de R$ 12.792.835: 65% de fundações do exterior, 14% de fundações nacionais, 12% de fundo institucional e R$ 482 mil de empresas (em 2020 eram R$ 6.039.373). Doadores citados: Itaú, Open Society, Fundação Ford e a doação de Mackenzie Scott. Conselhos Diretor e Fiscal fixam e monitoram metas, com comitê de equidade e 25 pessoas. Em 2025: DESARMES em 6 estados, 3.300 policiais capacitados, 8 pesquisas e 225 mil armas analisadas (Arsenal do Crime); a campanha acumula mais de 700 mil armas em 20 anos. O que revela no Brasil: concentrar 65% da receita em financiamento internacional é exposição a cortes e mudanças de prioridade de terceiros: a resposta é diversificar fontes nacionais. E a recusa da forma de fundação mostra que a escolha da forma jurídica (Lição 4) é decisão de governança, não de cartório.
Caso 10: Gerando Falcões: fundo de perenidade para sair da dependência do doador. Associação privada com CNPJ 18.463.148/0001-28 aberto em 25/06/2013 (Poá/SP), ligada ao livro Jovens Falcões (2011), atuando em rede federada de ONGs com CNPJ próprio. Financiamento em tripé: filantropia + negócios sociais (bazar e ASMARA) + escala pública. Em mar/2025 criou o Fundo Dignidade, com meta de R$ 250 milhões e regra de gastar 10% do patrimônio por ano; o Rouanet liberou R$ 271.573,83 para a Orquestra Jovem (DOU 2016). Crescimento: captação das aceleradas subiu de R$ 5,1 mi para R$ 13,7 mi (+266%) em 28 unidades (2022); 23 mil formados em 2024 (+200%) e 42 mil qualificados em 2025. Governança: CEO-fundador no comando; a célula central acelera e padroniza, e a ONG local preserva autonomia. O que revela no Brasil: é a resposta operacional ao desafio nº 1 das lideranças (seção 8.3): trocar dependência de doador por receita própria e patrimônio rendedor. Sinalização de fonte: o aporte da família Lemann diverge, o site informa R$ 100 mi, a Folha (2025) detalha R$ 50 mi + R 25 mi em contratos; e a Gerando Falcões não publica DRE ou balanço, de modo que a receita anual não é apurável.
11.3 O que cada caso revela sobre o contexto brasileiro
Dimensão | O que os cinco casos mostram | Conexão com esta lição |
|---|---|---|
Financiamento | Nenhuma depende majoritariamente de verba pública, mas todas convivem com concentração: 93% (Fundação Itaú), 62% (Instituto Ayrton Senna), 92% (Todos Pela Educação) e 65% (Instituto Sou da Paz) em uma origem dominante | Diversificação é a tradução prática da média de 3,9 fontes (seção 8.4) |
Governança | Coexistem Conselho Curador heterônomo (Fundação Itaú), conselhos que fixam e monitoram metas (Instituto Sou da Paz) e auditoria independente (Itaú, Ayrton Senna, Todos Pela Educação): com teto público de custo administrativo de 5% no caso do Itaú | Governança é produto de reputação em captação, não burocracia |
Escala | Cada caso declara uma métrica diferente: 5,16 mi de pessoas (Fundação Itaú), 42 mil qualificados (Gerando Falcões), 225 mil armas analisadas (Instituto Sou da Paz), 62% das matrículas (Todos Pela Educação) | Sem métrica declarada, a comparação entre organizações é inválida |
Forma jurídica | Seis dos sete casos brasileiros são associações; só a Fundação Itaú é fundação de fato; nenhum é OS | A escolha da forma é estratégia (Lição 4) e "OS" não é sinônimo de terceiro setor |
- 🔢 Você sabia? Nenhuma métrica de escala é comparável com a outra: Fundação Itaú declara 5,16 milhões de pessoas atendidas (2024), Gerando Falcões 42 mil qualificados (2025), Instituto Sou da Paz seis estados de atuação (2025), Todos Pela Educação 62% das matrículas da rede pública (2024) e o TETO Brasil 5.000 famílias acumuladas (dez/2024). "Atendidos", "formados", "cubertos" e "alcançados" medem coisas diferentes: em relatório, indique o que foi contado, quantas pessoas e em que ano, ou o comparativo com o concorrente será invalidado na primeira auditoria.
O que nas fontes dos casos é sinalizado como não verificado: não use como fato:
- Gerando Falcões: sem DRE ou balanço público, e o aporte da família Lemann diverge entre o site (R$ 100 mi) e a Folha (R$ 50 mi + R 25 mi em contratos);
- Atados: sem demonstração financeira; os "+R$ 6 mi" são fluxo repassado, não receita da Atados; o número de funcionários oscila entre 60 (2024) e 107 (LinkedIn);
- TETO Brasil: os ~R$ 1,8 mi vêm de declaração de jantar (dez/2025), sem balanço auditado localizado;
- Todos Pela Educação: a estimativa do LinkedIn (US$ 23,6 mi, 198 pessoas) não confere com o balanço auditado (R$ 26,1 mi): use o balanço;
- Fundação Itaú: os valores são publicados em R$ mil: confira o PDF original antes de reproduzi-los;
- Instituto Ayrton Senna: há classificações divergentes em artigos e enciclopédias (OS/OSCIP, fundação): prevalece o cadastro da Receita Federal (associação, natureza 399-9).
11.4 Modelos de captação exemplificados pelos casos brasileiros
Modelo de captação | Caso brasileiro | Número verificado (ano) |
|---|---|---|
Royalties de marca e imagem | Instituto Ayrton Senna | R$ 25,971 mi de R$ 41,738 mi de receita: 62% (2024) |
Fundo patrimonial / endowment | Fundação Itaú | R$ 414,4 mi de receitas financeiras; patrimônio líquido de R$ 5,54 bi (2024) |
Destinação de 1% do IR | Fundação Itaú | R$ 18,8 mi para 40 projetos (2024; R$ 24,5 mi em 2023) |
Fundo filantrópico de longo prazo | Gerando Falcões | Fundo Dignidade, meta de R$ 250 mi e gasto de 10% do patrimônio/ano (mar/2025) |
Lei de incentivo à cultura | Gerando Falcões | R$ 271.573,83 para a Orquestra Jovem (DOU 2016) |
Doações de PJ e PF | Todos Pela Educação | R$ 24,1 mi de doações sobre R$ 26,1 mi de receita (2024) |
Fundações internacionais | Instituto Sou da Paz | R$ 8,28 mi do exterior = 65% da receita (2022) |
Serviços B2B de voluntariado | Atados | +100 empresas e +R$ 6 mi direcionados (2024: fluxo repassado, não receita da Atados) |
Eventos de arrecadação | TETO Brasil | ~R$ 1,8 mi em jantar (dez/2025: declaração, sem balanço auditado localizado) |
11.5 Onde cada caso entra nas outras lições do curso
Lição do curso | Caso(s) | O que o caso ensina |
|---|---|---|
Todos Pela Educação, Gerando Falcões | Sem fins lucrativos não é sem atividade econômica | |
Fundação Itaú, Gerando Falcões | Instituto empresarial sem perder a missão | |
Fundação Itaú, Gerando Falcões, Todos Pela Educação | Captação mista, endowment e doação individual | |
Instituto Ayrton Senna, Todos Pela Educação, Instituto Sou da Paz | Predomina a associação privada; OS e OSCIP são opcionais | |
Fundação Itaú, Instituto Sou da Paz | Heteronomia, ativos × concessões e metas monitoradas | |
Gerando Falcões, Atados | Escala de captação e quem paga é a empresa | |
TETO Brasil | Produto padronizado + rede = escala com custo controlado | |
Gerando Falcões | Negócios sociais como receita recorrente | |
Fundação Itaú, Instituto Ayrton Senna, Todos Pela Educação | Receita financeira × doação, reserva e superávit | |
TETO Brasil, Atados | Voluntariado como insumo e como canal B2B | |
Instituto Ayrton Senna, Gerando Falcões, Fundação Itaú | Rouanet × destinação de 1% do IR: limites próprios | |
Todos Pela Educação, Fundação Itaú | Doador-chave, coalizão de advocacia e parceria corporativa | |
Instituto Sou da Paz, Todos Pela Educação | Incidência por evidência × impacto por entregável | |
Fundação Itaú, Gerando Falcões | Gastar o patrimônio versus sustentá-lo |
12. O que não usar em aula: números divergentes e não verificados
Esta seção existe para que lacuna de pesquisa nunca se transforme em afirmação categórica. Considere os itens abaixo como não verificados ou dependentes da fonte:
Premissas de trabalho que os fatos NÃO confirmam:
- "7,3 milhões de voluntários / 4,2%": não confirmado; verificado: 6,5 milhões (3,9%) em 2016 (PNAD/IBGE);
- "A causa religiosa lidera o ranking de doações": não confirmado; o ranking de 2024 é infância, saúde, fome e emergências, e religião aparece como rede de influência (43%);
- IDIS: "66%/68% dos recursos restritos": não confirmado; o 66% verificado é a parcela que aponta a sustentabilidade financeira como desafio (Panorama, jan/2026);
- "Mancebos" como categoria de caridade colonial e "Legião Portuguesa" como instituição brasileira de caridade: não localizados;
- "TSP, Transparência Social Terceiro Setor" como programa/selo federal, não localizado;
- "Limite de doações no art. 15 da Lei 9.532/1997", o art. 15 trata de isenção; os limites verificados são 6% (PF), 2% do lucro operacional (PJ) e 4% de limite global.
Datas divergentes ou não confirmadas:
- CNAS "criado em 1964": não confirmado; foi instituído pela LOAS (Lei 8.742/1993);
- "Decreto 8.240/2014" como regulamento do MROSC: não confirmado; o regulamento federal é o Decreto 8.726/2016, alterado pelo Decreto 11.948/2024;
- CNBB criada em 1955: plausível, não verificado nesta rodada;
- LBA: apenas "década de 1940", sem data exata consistente; Fundação Leão XIII (1946) e SESC (Dec. 9.853/1946), sim verificados;
- Congregações Marianas "desde 1584": fonte confessional, não documento primário;
- "Dia Mundial das ONGs com origem brasileira": não; a data internacional é o World NGO Day, 27/02, e a campanha brasileira é o Dia de Doar (desde 2013);
- Amostra da TIC OSFIL 2025: não obtida; a base anterior (TIC OSCs 2022) foi de 1.520 entrevistas a partir de 28.283 contatos do Cempre.
Divergências entre fontes para o mesmo fenômeno: explicitar, não "resolver":
Fenômeno | Valor A | Valor B | Conduta |
|---|---|---|---|
Número de OSCs | 917.727 (relatório Ipea, fev/2025) | 972 mil / 644 mil ativas (portal, set/2025); 960.323 / 618.187 ativas (2026) | Cite a da fonte usada; não some |
Apoio emergencial 2022 | R$ 122 mi (Folha, 09/12/2025) | R$ 112 mi (Observatório 3º Setor, 13/12/2025) | Mesma edição do Censo GIFE; diga "cerca de R$ 120 mi" |
Doadores em 2024 | 78% (IDIS/Ipsos, renda ≥ 1 SM) | 66% (recortes distintos) | Prevalece o número do próprio IDIS |
GIFE | 138 respondentes = 84% (Censo) | ~170 associadas (comunicação) | Bases de cálculo diferentes |
Aporte da família Lemann na Gerando Falcões | R$ 100 mi (site do Fundo Dignidade) | R$ 50 mi + R 25 mi em contratos (Folha, 2025) | Divergência sinalizada; a GF não publica balanço |
Afirmações sobre 2025-2026 que circulam sem confirmação: não leve para a aula:
- "Censo GIFE 2026" e "Pesquisa Doação Brasil 2025": não existem/não foram localizados; use Censo GIFE 2024 to 2025 e Doação Brasil 2024;
- "STF Tema 1113" como tema de OSCs: não; o Tema 1113 é de ICMS/energia;
- "PL 3.850/2021" como Marco Regulatório das OSCs: não; o MROSC é a Lei 13.019/2014 (aquele PL trata de outro assunto);
- "897.054 OSCs" no Mapa das OSCs: número desatualizado (abr/2024); cite a base e a metodologia do Ipea (mapaosc.ipea.gov.br);
- "90% dos recursos da Operação Korban redirecionados" e "R$ 53 mi em 2023 to 2024": não reconfirmados; use apenas os dados oficiais da PF/CGU (~R$ 15 mi em fomento, bloqueio de até R 27,4 mi em emendas 2024 to 2025);
- "Painel Gestão com 186 programas e 160.842 parceiras": contagens não reconfirmadas (a URL oficial devolveu erro); cite a existência do painel (MGI, 13/06/2025) sem números;
- Percentuais anuais de ICMS/ISS de 2029 to 2032: não relidos nesta pesquisa; use apenas a transição geral 2026 to 2033;
- Data da IN RFB 2.307/2026 (20/02/2026): deve ser conferida no DOU antes de citar em peça técnica.
13. Síntese: o que os números mandam você fazer
Contexto só vale se virar decisão. Este é o roteiro mínimo de tradução dos dados desta lição para a gestão da sua organização:
Se o dado diz... | ...a decisão é |
|---|---|
705.052 OSCs não têm vínculo formal | Dimensione propostas, certidões e exigências de porte ao porte real; não copie cláusula de grande entidade |
15% do ISP usa incentivo fiscal | Não planeje a sobrevivência em torno de benefício tributário; planeje em torno de doador e de repasse |
R$ 24,3 bi doados, com 78% de participação | Priorize aquisição de novos doadores nas datas de pico (Dia de Doar, campanhas emergenciais) |
Fidelidade 69% → 49% | Crie motivo para a segunda doação: relatório de resultado em até 90 dias, prestação de contas pública, comunicação de impacto |
66% apontam sustentabilidade como desafio, média de 3,9 fontes | Diversifique hoje: doador individual, empresa mantenedora, recurso público (MROSC) e campanha de data não podem se excluir |
41,8% coletivos × 12,2% OSCs na periferia | Se você captura recurso público, capacite coletivos parceiros a formalizar-se; se você é coletivo, trate o CNPJ como prioridade de governança |
1/3 das OSCs já usa IA generativa | Antes de ferramenta, organize dado e processo: IA sem governança amplia erro e risco de proteção de dados |
14. Glossário do contexto brasileiro
Termos que aparecem nas fontes desta lição e que costumam gerar dúvida em sala:
Termo | O que significa | Fonte / uso |
|---|---|---|
OSC | Organização da Sociedade Civil: rótulo funcional para entidade privada sem fins lucrativos de interesse público | Ipea, MROSC |
Mapa das OSCs | Base do Ipea que cruza CNPJ, CNAE, RAIS e território | 917.727 OSCs (fev/2025) |
CNPJ | Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica: registro perante a Receita Federal | Exigência prática de editais e conta bancária |
ENSFIL | Entidades Sem Fins Lucrativos: recorte do IBGE/Cempre por natureza jurídica | 1,2 milhão de unidades (base 2023) |
FASFIL | Fundações e Associações Sem Fins Lucrativos: outro recorte do CEMPRE | 596.259 entidades (base 2023) |
RAIS | Relação Anual de Informações Sociais: registro anual de vínculos formais | MTE; 3.703.881 vínculos (2023) |
ISP | Investimento Social Privado: total investido por empresas, fundações e institutos | Censo GIFE; R$ 5,8 bi (2024) |
GIFE | Grupo de Institutos, Fundações e Empresas: associação que produz o Censo do ISP | ~170 instituições (2025) |
IDIS | Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social | Pesquisa Doação Brasil (com Ipsos) |
CAF | Charities Aid Foundation | World Giving Report; Panorama das ONGs |
ABCR | Associação Brasileira de Captadores de Recursos | Organiza o Dia de Doar no Brasil desde 2013 |
MROSC | Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil | Lei 13.019/2014 e alterações |
CEBAS | Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social | LC 187/2021 (saúde, educação, assistência) |
IMUNIDADE × ISENÇÃO | Imunidade (Constituição) afasta a incidência; isenção (lei) dispensa o pagamento em casos previstos | CF art. 150, VI × Lei 9.532/1997 |
FIDELIDADE | Percentual de doadores que repetem doação para a mesma instituição | 69% (2015) → 49% (2024), IDIS |
TIC OSFIL | Pesquisa de uso de tecnologia da informação em OSCs | Cetic.br/NIC.br; 1/3 usa IA generativa |
PNAD | Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (IBGE) | 6,5 milhões de voluntários (2016) |
CEMPRE | Cadastro Central de Empresas (IBGE) | Base dos estabelecimentos e da extração ENSFIL |
IBS / CBS | Imposto sobre Bens e Serviços e Contribuição sobre Bens e Serviços: os dois tributos novos da reforma (EC 132/2023, LC 214/2025) | Ano-teste de 2026: CBS 0,9% + IBS 0,1% |
ANO-TESTE | Período de 01/01 a 31/12/2026, em que CBS/IBS são compensados com PIS/COFINS e as obrigações acessórias garantem taxa de prova isenta | Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 1/2025; Decreto 12.955/2026 |
CGIBS | Comitê Gestor do IBS | Criado pela LC 227/2026 |
TRANSTEREGOV | Plataforma federal de execução e prestação de contas das parcerias com OSC | Decreto 11.948/2024, art. 55 |
CORTE DE 10% | Redução linear de 10% de todos os incentivos federais, com exceções no art. 4º, § 8º | LC 224/2025, com redação do art. 11 da LC 235/2026 |
15. Fontes primárias desta lição
Toda estatística desta página pode ser auditada nas fontes abaixo: consulta obrigatória antes de reutilizar qualquer número:
- Setor (Ipea / Mapa das OSCs): relatório "O Perfil das Organizações da Sociedade Civil no Brasil (2016 to 2025)" e portal do Mapa das OSCs;
- Trabalho e população: RAIS/MTE (Sumário Executivo 2023, 2024 e 2025); IBGE, agência de notícias sobre voluntariado (26/03/2018);
- ISP (GIFE): Censo GIFE 2024 to 2025 (gife.org.br); Observatório 3º Setor (13/12/2025); Folha de S.Paulo (09/12/2025);
- Doação individual (IDIS, CAF, ABCR): Pesquisa Doação Brasil 2024 (pesquisadoacaobrasil.org.br, PDF completo); CAF/IDIS Giving in Brazil 2025; Panorama das ONGs: capítulo Brasil; World Giving Report (Rede Filantropia);
- Periferias: estudo "Periferias e Filantropia" (Iniciativa PIPA + Instituto Nu, 30/03/2023), com divulgação no GIFE e no Ipea;
- Legislação: Lei 13.019/2014; Decreto 8.726/2016 e Decreto 11.948/2024; LC 187/2021; LC 214/2025 (art. 9º); LC 224/2025; LC 227/2026; Lei 9.532/1997; Decreto-Lei 525/1938;
- Atualizações 2025 to 2026: LC 235/2026 (art. 11); Decreto 12.955/2026 (art. 582); Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 1/2025; IN RFB 2.305/2025 e IN RFB 2.307/2026; FAQ da RFB sobre a redução dos incentivos e benefícios tributários; TCU: Acórdãos 1355/2025-Plenário, 2753/2025, 6107/2025 e 6633/2025 (1ª Câmara); STJ: Informativo 893 e a tese sobre vedação de recuperação judicial; TST: RR-100039-53.2019.5.01.0206; STF: ADPF 854 e ADI 7688; MPF/INSS: Recomendação 18/2025 e plano operacional do PDMA;
- Casos de organizações: demonstrações financeiras e relatórios anuais da Fundação Itaú, do Instituto Ayrton Senna, do Todos Pela Educação, do Instituto Sou da Paz e da Gerando Falcões, além do cadastro na Receita Federal (CNPJ) para a conferência da natureza jurídica;
- História: Santa Casa de Santos (artigo SciELO); estudos sobre CNSS, LBA, SENAI e SESI;
- Digitais e campanhas: Cetic.br (TIC OSFIL); release do NIC.br sobre IA generativa (07/07/2026); ABCR/Dia de Doar; G1 sobre Pix (07/02/2026).
Boa prática de citação: escreva sempre no formato "número + indicador + fonte + ano-base": por exemplo, "3.703.881 vínculos formais em entidades sem fins lucrativos (RAIS/MTE, 2023)". Se a sua fonte for secundária (veículo de imprensa), cite o estudo original e, entre parênteses, o veículo e a data em que você o leu.
16. Pontos de Atenção do Tema
Pontos que costumam gerar dúvida neste tema, e a resposta curta de cada um:
- Quantas ONGs existem? Depende do recorte: 917.727 OSCs (Ipea, fev/2025), ~1,2 milhão de ENSFIL (IBGE/Cempre, base 2023) ou 3,7 milhões de vínculos (RAIS, 2023): nunca um número solto;
- O setor é grande ou micro? As duas coisas: 3,7 milhões de empregos formais e, ao mesmo tempo, 705.052 OSCs sem nenhum empregado;
- Qual a maior fonte de recurso? Para o ISP, empresas e fundações (R$ 5,8 bi em 2024); para a doação das pessoas, R$ 24,3 bi em 2024: repasse público e essas duas bases não se confundem;
- O incentivo fiscal sustenta o setor? Não: só 15% do ISP o utiliza (GIFE, 2024);
- Os doadores estão acabando? A base caiu (84% → 78%; 62% → 59%), mas o ticket subiu (R 480) e o volume total cresceu 64%;
- Qual o desafio nº 1? Sustentabilidade financeira, apontada por 66% das lideranças, com média de 3,9 fontes de receita;
- Qual a maior barreira das periferias? O formato do edital: 41,8% são coletivos e só 12,2% se declaram OSCs;
- Quanto o Brasil doa em relação à renda? 0,93%, contra 1,04% da média global (CAF, n=998);
- Quantos voluntários há? 6,5 milhões (3,9%): dado de 2016; números maiores não foram confirmados;
- A causa religiosa lidera? Não confirmado, o ranking de 2024 é infância, saúde, fome e emergências; religião lidera como rede de influência (43%);
- O que muda de fato em 2026? O ano-teste (CBS 0,9% + IBS 0,1%, compensados com PIS/COFINS) e o corte de 10% nos incentivos federais: IRPJ e II desde 01/01, demais tributos federais desde 01/04 (LC 224/2025 e Decreto 12.955/2026);
- A entidade perdeu a isenção em 2026? Não automaticamente: o item 34 do Anexo da IN RFB 2.307/2026 mantém o art. 15 da Lei 9.532/1997 e o inciso V do § 8º do art. 4º da LC 224, com redação da LC 235/2026, ressalva os benefícios de PJ sem fins lucrativos: quem perdeu dedutibilidade foi o doador (item 26, revogado);
- Posso pedir recuperação judicial? Não: associações e fundações ficam fora da Lei 11.101/2005 (STJ, 3ª e 4ª Turmas, 2024 to 2025); exceção das cooperativas médicas (ADI 7.442/STF);
- Quem responde pelas dívidas da entidade? Quem geriu ou aprovou contas (TST, RR-100039, 2025); na dissolução sem destinação dos bens (art. 61 do CC), débito e multa ficam com os dirigentes (TCU 6107/2025).
Perguntas Práticas (Practice Questions)
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Quantas OSCs o relatório "O Perfil das Organizações da Sociedade Civil no Brasil (2016 to 2025)" mapeia, com dados até fev/2025?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Qual a parcela do Investimento Social Privado que se utiliza de incentivos fiscais, segundo o Censo GIFE 2024 to 2025?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Quanto totalizaram as doações individuais no Brasil em 2024, segundo a Pesquisa Doação Brasil 2024 (IDIS/Ipsos)?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
O que aconteceu simultaneamente com a doação individual no Brasil entre 2022 e 2024?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Qual instrumento do MROSC serve à proposta feita pela própria OSC, com transferência de recursos?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
A LC 214/2025 assegura imunidade a quem, e qual é o principal limite do dispositivo?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Segundo "Periferias e Filantropia" (2023), qual é o principal entrave das organizações periféricas ao acesso a recursos?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Qual a parcela de organizações sem fins lucrativos que já usava IA generativa, segundo a TIC OSFIL 2025 (Cetic.br)?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Como fica a doação brasileira como percentual da renda no World Giving Report (CAF/IDIS)?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Qual é o desenho tributário vigente em 2026 para as organizações sem fins lucrativos?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Em 2024 a Fundação Itaú registrou R$ 444,2 milhões de receitas, das quais 93% financeiras, e patrimônio líquido de R$ 5,54 bilhões. Qual é a leitura correta?
Como responder
Exercício de associação com 6 pares. Associe cada item à esquerda com a resposta à direita.
Associe cada número-chave do contexto brasileiro à sua fonte e ano corretos:
Arraste as respostas daqui:
Armadilhas desta lição:
- Não existem "2 milhões de ONGs com CNPJ", o universo mapeado é de 917.727 OSCs (Ipea, fev/2025) e ~1,2 milhão de estabelecimentos ENSFIL (IBGE/Cempre, base 2023); são recortes diferentes e não somáveis;
- "7,3 milhões de voluntários" não é dado confirmado, o verificado é 6,5 milhões (3,9%) em 2016 (PNAD/IBGE);
- "A causa religiosa lidera o ranking de doações" não se confirma: religião aparece como rede de influência (43%); o ranking de 2024 é infância, saúde, fome e emergências;
- O governo não é a maior fonte do setor: o ISP de R$ 5,8 bi vem do setor privado, com só 15% de incentivo fiscal, e a doação individual somou R$ 24,3 bi em 2024;
- Fidelidade em queda não é falta de generosidade: caiu de 69% para 49% enquanto a mediana subiu de R$ 300 para R$ 480, o doador ficou seletivo, não mais pobre;
- Edital exige CNPJ; a periferia é feita de coletivos (41,8% × 12,2%): formalização é, hoje, a maior barreira de acesso a recurso público no país;
- Normas mudam rápido: Lei 12.101/2009 revogada (LC 187/2021), isenções revogadas pela LC 224/2025 e imunidade limitada pelo § 4º do art. 9º da LC 214/2025: confira sempre a redação vigente antes de citar;
- Citar número sem fonte e ano é o erro mais comum do tema, e é ele que transforma relatório técnico em informação inválida.
Pontos Principais (Key Takeaways):
- O setor se mede com três recortes que não se confundem: 917.727 OSCs (Ipea, fev/2025), 3,7 milhões de vínculos formais (RAIS/MTE, 2023) e 11,3 milhões de estabelecimentos / 1,2 mi ENSFIL (IBGE/Cempre, base 2023);
- O Brasil é um arquipélago de microorganizações: 705.052 OSCs não têm nenhum empregado formal e só 1.098 (0,12%) têm 500 ou mais vínculos;
- A espinha legal vai de 1543 (Santa Casa de Santos) a 2026 (LC 227), passando por CF/88 (imunidades), LOAS/1993 (CNAS), OS/OSCIP (1998 to 1999), MROSC (Lei 13.019/2014) e a onda tributária 2021 to 2026;
- O ISP atingiu R$ 5,8 bilhões em 2024 (Censo GIFE 2024 to 2025), 2º maior da série, com só 15% de incentivo fiscal, 67% de foco em educação e repasses a OSCs subindo de R$ 350 mi para R$ 1,3 bi;
- A doação individual somou R$ 24,3 bilhões em 2024 (IDIS/Ipsos), mas com menos doadores (84% → 78%), menos fidelidade (69% → 49%) e causas trocadas: emergências de 13% para 30%;
- Sustentabilidade financeira é o desafio nº 1 de 66% das lideranças, com média de 3,9 fontes de receita (Panorama das ONGs: Brasil, jan/2026);
- 95% das organizações de periferia têm dificuldade de acesso a recurso e 41,8% são coletivos contra 12,2% que se declaram OSCs, o edital, e não o território, é a barreira;
- Toda decisão de gestão deve cruzar número + fonte + ano: número sem origem virou erro em edital, em prova e em prestação de contas.