Medição de Impacto em ONGs
Curso aprofundado sobre medição e gestão de impacto no terceiro setor brasileiro: cadeia de resultados e o vocabulário exato (produto × resultado × impacto), Teoria da Mudança montada do zero, MROSC artigo por artigo (incluído o art. 56 revogado), frameworks internacionais (ToC, IRIS+, GRI, IMP, OCDE-DAC e SROI), estado da prática no país com dados e fontes, linha de base × meta com aritmética, contribuição × atribuição em diferença-em-diferenças, SROI calculado passo a passo com ajustes e sensibilidade, painel de KPIs com fonte, frequência e responsável, matriz de maturidade, tabela de erros comuns × correção, casos reais de medição com dados verificados (Instituto Sou da Paz, Todos Pela Educação, TETO/FGV, Fundação Itaú e Habitat) com a análise do que cada um mede, como mede e o que copiar, incluindo impact washing e dois exemplos calculados, e questões práticas comentadas.
Medir impacto é transformar a promessa da missão em evidência verificável. Enquanto a prestação de contas prova que o dinheiro foi gasto conforme o plano, a evidência de impacto prova que a vida das pessoas mudou por causa da intervenção, e é essa segunda prova que financiadores, empresas e doadores individuais estão passando a exigir. A leitura do IDIS publicada em 09/12/2025 resume o movimento: monitoramento e avaliação integrados à gestão deixam de ser exigência burocrática e viram alicerce de transparência, confiança e sustentabilidade, em um ciclo virtuoso descrito pela própria pesquisa:
┌───────────────────────────────────────────────────────────────────────┐
│ CICLO VIRTUOSO DA M&A INTEGRADA À GESTÃO (IDIS, 09/12/2025) │
│ │
│ DADOS CLAROS ──► TRANSPARÊNCIA ──► CREDIBILIDADE │
│ ▲ │ │
│ │ ▼ │
│ MAIS FINANCIADORES ◄── CONFIANÇA ◄── MELHOR GESTÃO │
│ │ │
│ └──► SUSTENTABILIDADE E IMPACTO AMPLIADO ──► novos dados │
└───────────────────────────────────────────────────────────────────────┘Esta lição percorre, nesta ordem: o vocabulário que evita os erros mais caros do setor; o marco legal brasileiro (MROSC), incluído o dispositivo de remanejamento que já não existe mais; os frameworks internacionais e o que cada um não resolve; o estado da prática no Brasil com números e fontes; o desenho do sistema de medição do mais barato ao mais caro; a aritmética de linha de base × meta e de contribuição × atribuição; o SROI calculado com números; um painel de KPIs pronto para copiar; a matriz de maturidade; a tabela de erros × correção; os casos reais de medição com dados verificados; e as questões práticas.
A frase que define a disciplina: só um estudo de impacto, com desenho que permite atribuição causal, autoriza a dizer "graças ao nosso programa". Recibo, relatório financeiro e certidão de pagamento comprovam conformidade, não mudança. O setor brasileiro erra ao tratar recibo como resultado.
Como usar esta lição. Cada seção termina com algo aplicável no mês seguinte: uma fórmula, um parâmetro de plano de trabalho, uma coluna de painel ou uma pergunta de escuta. Se você tiver de escolher um único ponto de partida, comece pela linha de base (Seção 5.5): sem ela, nenhum outro número é defensável.
1. Vocabulário: a Cadeia de Resultados e o Que Cada Termo Prova
1.1 A cadeia de resultados (modelo lógico)
Toda medição de impacto séria começa por separar os cinco níveis da cadeia. Confundir produto com resultado é o erro mais caro do setor: ele faz a ONG entregar relatórios bonitos que não sustentam nenhuma tese de impacto.
┌─────────────────────────────────────────────────────────────────────┐
│ CADEIA DE RESULTADOS (MODELO LÓGICO / RESULTS CHAIN) │
├─────────────────────────────────────────────────────────────────────┤
│ 1. INSUMOS recursos que entram │
│ ex.: R$ 480 mil · 12 educadores · parceria com a rede municipal │
│ │ │
│ ▼ │
│ 2. ATIVIDADES o que a ONG efetivamente faz │
│ ex.: 96 oficinas · 1.440 horas · 120 mentorias/mês │
│ │ │
│ ▼ │
│ 3. PRODUTO o que é entregue (resultado imediato) │
│ ex.: 240 alunos concluintes · 92% de frequência │
│ │ │
│ ▼ │
│ 4. RESULTADO mudança de médio prazo: comportamento/habilidade │
│ ex.: evasão de 12% → 9,6% · +38% de proficiência em leitura │
│ │ │
│ ▼ │
│ 5. IMPACTO mudança de longo prazo atribuível à intervenção │
│ ex.: +22% de escolarização subsequente vs contragrupo │
│ │
│ CADA SETA É UMA SUPosição CAUSAL TESTÁVEL — ver Seção 3.1 │
└─────────────────────────────────────────────────────────────────────┘1.2 Outputs, outcomes e impact: a tabela que resolve a maior parte dos mal-entendidos
No jargão internacional (e em vários editais), os três níveis finais têm nomes em inglês. Traduzidos com rigor, eles respondem a perguntas diferentes, provam coisas diferentes e atendem a públicos diferentes:
Conceito | Nível na cadeia | Pergunta que responde | Exemplo concreto | O que não prova | Quem costuma pedir |
|---|---|---|---|---|---|
Output (produto) | Produto / resultado imediato | O que entregamos? | 80 sessões apresentadas; 240 alunos concluintes; 92% de frequência; 300 mentorias realizadas | Nenhuma mudança no público | Poder público: MROSC, art. 64 |
Outcome (resultado) | Resultado de médio prazo | O que mudou em quem participou? | ampliação de repertório; hábito de frequentar; renda de artistas locais; evasão de 12% → 9,6%; autonomia declarada | Quem causou a mudança (atribuição) | Doadores, empresas e financiadores |
Impact (impacto) | Impacto de longo prazo | A mudança é atribuível à nossa intervenção? | +22% de escolarização subsequente vs contragrupo; permanência escolar sustentada por 5 anos | : (é o nível máximo) | Estudo, imprensa, decisão de escala |
Exemplo 1, o mesmo programa cultural em três frases. Uma companhia de teatro financiada por edital pode escrever: (i) "apresentamos 80 sessões para 12 mil pessoas" → output; (ii) "62% do público relatou ampliação de repertório e 45% voltou a frequentar atividades culturais ao menos uma vez por mês" → outcome; (iii) "a programação gratuita expandida respondeu por 9 pontos percentuais a mais de frequência cultural no distrito, comparado a um distrito semelhante sem a programação" → impacto, porque só a frase (iii) traz comparação capaz de sustentar atribuição. Apenas a segunda frase sustenta tese de impacto; a primeira, isolada, sustenta apenas execução.
Confundir output com impacto é o erro que mais aparece em prestação de contas e em site institucional. "240 alunos concluintes" é produto; "240 alunos mudaram de vida" é impacto, e a segunda frase, sem desenho de avaliação, é uma afirmação não demonstrada. Regra de bolso: se a frase não traz comparação (com meta, com linha de base ou com grupo externo), ela descreve entrega, não mudança.
1.3 Taxonomia de indicadores com exemplos (programa de educação)
Nível | Pergunta | Exemplo | Quem pede | Frequência |
|---|---|---|---|---|
Insumo | Quanto entrou? | R$ 480 mil; 12 educadores | Financiador | Anual |
Atividade | O que fizemos? | 96 oficinas; 1.440h | MROSC (art. 66) | Mensal |
Produto | O que entregamos? | 240 alunos concluintes; 92% de frequência | MROSC (art. 64) | Por ciclo |
Resultado | O que mudou neles? | +38% de proficiência em leitura; evasão de 12% → 9,6% | Doador/empresa | Semestral |
Impacto | Mudança atribuível de longo prazo | +22% de escolarização subsequente vs contragrupo | Estudo/público | Pontual |
1.4 Monitoramento × avaliação × estudo de impacto
Termo | Pergunta central | O que responde | O que prova |
|---|---|---|---|
Monitoramento | Estamos entregando o que combinamos? | Eficiência e cumprimento de metas | Execução e progresso contínuos |
Avaliação | A mudança aconteceu? | Efetividade e impacto | Juízo sobre mérito, relevância, eficiência, impacto e sustentabilidade |
Estudo de impacto | A mudança é atribuível à nossa intervenção? | Atribuição causal | Grupo de comparação ou método equivalente, o único que justifica "graças ao nosso programa" |
Os seis critérios da OCDE-DAC (relevância, coerência, efetividade, eficiência, impacto e sustentabilidade) são o vocabulário padrão dessas avaliações externas: ver Seção 3.4.
- 🔢 Você sabia? 90,7% dos profissionais consultados monitoram seus projetos, mas apenas 17,4% declaram fazer avaliação de impacto (IDIS, 2018, com 86 profissionais de cerca de 80 organizações). Entre as organizações que monitoram todos os projetos, só 31,9% avaliam impacto de todos. A assimetria não é de orçamento: é de desenho, o setor comprova execução, não mudança.
1.5 Quem pede o quê: a regra prática de negociação
Interlocutor | O que ele precisa ver | Nível adequado da cadeia | O que não adianta entregar |
|---|---|---|---|
Administração pública (MROSC) | Comprovação do alcance das metas | Produto + parâmetros do art. 22, IV | Relato narrativo sem fórmula |
Doador corporativo ou filantrópico | Evidência de que a doação "faz a diferença" | Resultado com linha de base | Contagem de atendimentos |
Investidor de impacto / relato ESG | Métricas padronizáveis e comparáveis | Resultado + IRIS+/GRI | Métrica inventada sem correspondência |
Decisão de escala ou disputa de tese | Atribuição causal | Estudo de impacto | Pesquisa de satisfação |
Implicação prática de quem financia: peça indicadores de produto para a administração pública (MROSC), indicadores de resultado para doadores e empresas, e estudo de impacto apenas quando houver decisão de escala ou disputa de tese. Custo e tempo de um estudo causal só se pagam quando a decisão justifica.
2. Marco Legal Brasileiro: o MROSC Obriga a Pensar em Impacto
A Lei nº 13.019/2014 (redação da Lei nº 13.204/2015) é a norma de referência de monitoramento e avaliação no terceiro setor brasileiro. Ela não usa a palavra "impacto" por acaso: ela escreve, em cinco pontos distintos, que a parceria precisa ser aferida, e aferição sem indicador não existe.
2.1 Os dispositivos que exigem aferição
Art. 22, IV: o plano de trabalho deve conter a "definição dos parâmetros a serem utilizados para a aferição do cumprimento das metas": a redação original exigia "indicadores, qualitativos e quantitativos".
Art. 58: "A administração pública promoverá o monitoramento e a avaliação do cumprimento do objeto da parceria."
Art. 58, § 2º: nas parcerias com vigência superior a 1 ano, a administração fará, sempre que possível, pesquisa de satisfação com os beneficiários e usará os resultados como subsídio na avaliação, na reorientação e no ajuste das metas e atividades.
Art. 59, § 1º, II: o relatório técnico de M&A deve conter "análise das atividades realizadas, do cumprimento das metas e do impacto do benefício social obtido em razão da execução do objeto até o período, com base nos indicadores estabelecidos e aprovados no plano de trabalho".
Art. 64: a prestação de contas deve permitir avaliar o andamento, com "descrição pormenorizada das atividades realizadas e a comprovação do alcance das metas e dos resultados esperados".
- 🔢 Você sabia? O art. 58, § 2º, da Lei nº 13.019/2014 não manda apenas ouvir: manda usar a escuta para reorientar e ajustar metas e atividades. Ou seja, o ordenador de despesas tem dever legal de corrigir rota com base no que os beneficiários dizem. Parceria de 24 meses sem pesquisa de satisfação não é economia: é descumprimento de um comando expresso, sempre que possível executável.
2.2 Arts. 66 e 67: quem entrega o quê
- Art. 66: a entrega se divide em Relatório de Execução do Objeto (comparativo de metas propostas × resultados alcançados) e Relatório de Execução Financeira: dois relatórios, com funções distintas;
- Art. 67: o gestor emite parecer técnico conclusivo apoiado no monitoramento e avaliação;
- Arts. 25 e 35-A: em atuação em rede, a responsabilidade pelo M&A é integralmente da OSC celebrante, o M&A da rede é dela, e não se divide entre parceiros.
2.3 O art. 56 morreu: remanejamento de valores hoje é apostilamento
Este é o ponto em que material desatualizado continua circulando em apostilas e em modelos de plano de trabalho:
Antes (texto revogado) | Hoje (norma vigente) |
|---|---|
Art. 56 da Lei nº 13.019/2014 permitia remanejar até 25% do valor entre itens de despesa | Revogado pela Lei nº 13.204/2015 (art. 9º, II) |
: | Federalmente vale o Decreto nº 8.726/2016, art. 43: ajuste por apostilamento, admitido sem autorização prévia até 10% do valor global (§ 4º, com redação do Decreto nº 11.948/2024) |
"Posso remanejar 25%" | Valores são ajustados na forma do decreto; metas mudam só por termo aditivo ou apostila (art. 57) |
Flexibilidade de rubrica não é flexibilidade de meta, e o percentual de 25% não existe mais. Dois erros distintos se acumulam aqui: (i) citar o art. 56 com 25% como se estivesse vigente (está revogado); (ii) tratar ajuste de valor como licença para recalcular entregas pelo caminho. Metas, indicadores e parâmetros de aferição do art. 22, IV mudam só por termo aditivo ou apostila (art. 57). Organizações que confundem os dois chegam à prestação de contas com resultado abaixo do parametrizado, e glosa.
2.4 Checklist de M&A em parceria MROSC (o que a fiscalização vai pedir)
Momento | Documento | Base legal |
|---|---|---|
Antes de assinar | Plano com parâmetros de aferição de metas | art. 22, IV |
Durante | Registro de execução (atividades, presença, comprovantes) | art. 58 |
Durante (se > 1 ano) | Pesquisa de satisfação com beneficiários | art. 58, § 2º |
Por exercício | Prestação de contas parcial/final | arts. 49 e 69 |
Contas | Relatório de Execução do Objeto + Execução Financeira | art. 66 |
Análise | Relatório técnico de M&A com "impacto do benefício social" | art. 59, § 1º, II |
Parecer | Parecer técnico conclusivo do gestor, apoiado no M&A | art. 67 |
2.5 Exemplo 2: um plano de trabalho que sobrevive à fiscalização
Objetivo pactuado com a Secretaria Municipal de Educação: "reduzir a evasão em 20% em 24 meses". O art. 22, IV não aceita essa frase solta: ele exige parâmetros. Eis a versão parametrizada, com linha de base apurada antes da assinatura:
Nível | Indicador | Fórmula / parâmetro (art. 22, IV) | Linha de base | Meta | Fonte |
|---|---|---|---|---|---|
Insumo | Educadores dedicados | nº de educadores em dedicação exclusiva | : | 4 | Contratação |
Atividade | Mentorias realizadas | nº de mentorias por mês | : | 120/mês | Lista de presença |
Produto | Alunos acompanhados | alunos ativos no período | : | 300 | Sistema da OSC |
Produto | Frequência | presenças ÷ inscrições × 100 | 78% | ≥ 85% | Diário escolar |
Resultado | Evasão | evadidos ÷ matriculados × 100 | 12,0% | 9,6% em 24 meses | Censo da rede |
Resultado | Satisfação | média da escala 0 to 10 | 7,4 | ≥ 8,0 | Pesquisa semestral |
Impacto | Retenção escolar sustentada | série histórica da rede × contragrupo | : | avaliação com série histórica | Rede + estudo |
A diferença entre "reduzir em 20%" e a fórmula acima é de 0,4 ponto percentual, e 0,4 p.p. sobre 1.200 alunos equivale a 5 alunos por ano (cálculo completo na Seção 6.1). É exatamente essa diferença que decide se a meta foi cumprida ou não.
3. Frameworks Internacionais em Uso
3.1 Teoria da Mudança (ToC): o mapa de trás para frente
A Teoria da Mudança mapeia de trás para frente a mudança pretendida e o nexo causal que a produz. É o pré-requisito de qualquer indicador de resultado: sem nexo causal explícito, indicador vira número solto. É também a atividade mais barata do sistema inteiro de medição: uma oficina de 1 dia com equipe e beneficiários.
Exemplo 3: Teoria da Mudança completa da ONG fictícia "Rede Semear" (redução da evasão escolar em dois distritos da rede municipal):
┌──────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐
│ TEORIA DA MUDANÇA — REDE SEMEAR (fictícia) │
│ lê-se de baixo para cima; cada ▲ é uma suposição causal testável │
├──────────────────────────────────────────────────────────────────────────┤
│ IMPACTO PRETENDIDO (5 a 10 anos) │
│ "Jovens do território concluem o ensino médio e acessam renda digna" │
│ ▲ suposição: concluir o ensino médio amplia o acesso a renda formal │
│ CADERNO DE LONGO PRAZO │
│ renda formal · continuidade de estudos · menor desigualdade local │
│ ▲ suposição: a família apoia a frequência quando é escutada │
│ RESULTADOS DE MÉDIO PRAZO (12 a 24 meses) │
│ evasão de 12,0% → 9,6% · autonomia declarada · satisfação ≥ 8,0 │
│ ▲ suposição: mentorias resolvem a barreira quando ela é familiar/ │
│ escolar (e não estrutural, como transporte ou trabalho infantil) │
│ RESULTADOS IMEDIATOS = PRODUTO │
│ 300 alunos acompanhados · 85% de frequência · 80% concluem a mentoria │
│ ▲ suposição: oferta regular de mentoria gera vínculo suficiente │
│ ATIVIDADES │
│ 120 mentorias/mês · oficinas com famílias · pactuação com 2 escolas │
│ ▲ suposição: a rede municipal fornece dados de frequência em dia │
│ INSUMOS │
│ 4 educadores · R$ 480 mil/ano · parceria com a rede municipal │
└──────────────────────────────────────────────────────────────────────────┘3.2 De onde vem cada indicador: a seta vira pergunta
Seta da ToC (suposição) | Como testar | Indicador ou método que nasce dela |
|---|---|---|
"A rede entrega dados de frequência em dia" | conferência mensal com a secretaria | % de escolas com dados atualizados até o dia 10 |
"A mentoria gera vínculo" | taxa de permanência no programa | conclusão de mentoria ≥ 80% |
"Mentorias resolvem a barreira familiar/escolar" | escuta qualitativa + comparação | grupos focais anuais + queda de evasão vs linha de base |
"Família escutada apoia a frequência" | pesquisa com responsáveis | satisfação ≥ 8,0 e frequência ≥ 85% |
"Concluir o ensino médio amplia renda" | estudo posterior | escolarização subsequente vs contragrupo |
Sem essa tabela, o painel de KPIs vira lista de desejos; com ela, cada número tem uma hipótese que justifica a coleta.
3.3 Comparativo dos frameworks
Framework | Pergunta central | Saída | Melhor para | Limite |
|---|---|---|---|---|
Teoria da Mudança | Por que deve funcionar? | Mapa de nexo causal | Desenho e negociação | Não mede |
Modelo lógico / Cadeia de resultados | O que faremos até onde? | Tabela insumo → impacto | Editais MROSC | Superficial em causalidade |
IRIS+ / Core Metrics (GIIN) | Qual métrica padronizada? | Catálogo de KPIs | Comparabilidade e investidores | Não explica o porquê |
IMP: 5 dimensões | Quão bom é o impacto? | Perfil de impacto | Decisão de alocação | Requer dados robustos |
GRI 3 + Universal | O que é material? | Relatório de sustentabilidade | Transparência institucional | Relato, não avaliação |
SROI (SVI) | Vale a pena? | Índice R$ por R$ + narrativa | Captação e comunicação | Custo alto; risco de superestimativa |
OCDE-DAC | Foi uma boa avaliação? | Juízo em 6 critérios | Avaliações externas | Pós-fato |
Resumo em uma frase: ToC desenha, modelo lógico organiza, IRIS+ e GRI padronizam o relato, IMP qualifica, OCDE-DAC julga e SROI traduz em dinheiro: nenhum deles substitui o outro, e nenhum mede sozinho.
3.4 Critérios OCDE-DAC
Os seis critérios são o vocabulário padrão de financiadores que encomendam avaliações externas: relevância (o problema abordado é o certo?), coerência (combina com outras ações?), efetividade (os objetivos foram alcançados?), eficiência (o custo foi proporcional ao resultado?), impacto (mudanças amplas, inclusive não intencionais?) e sustentabilidade (dura no tempo?). Um relatório que se diz "avaliação" sem passar por eles é, na prática, um relatório de execução.
3.5 IRIS+ (GIIN)
O IRIS+ é o catálogo de métricas de desempenho de impacto do GIIN, organizado em Core Metrics Sets por tese (educação, clima, trabalho decente, entre outras): útil quando o financiador pede métricas comparáveis entre investidores de impacto. O IRIS+ responde "qual métrica usar", não "por que essa métrica importa": ele é catálogo, não avaliação.
Item não verificado nesta pesquisa: a versão IRIS+ v5.3c com 781 métricas e a atualização dos Core Metrics Sets em 07/2025 aparecem em material secundário e não foram confirmados na fonte primária. Trate os números como não conferidos e confira em iris.ifc.org antes de citá-los em relatório ou em edital.
3.6 Impact Frontiers / IMP: as 5 dimensões do impacto
Sob curadoria da Impact Frontiers, o arcabouço do Impact Management Project organiza o perfil de impacto em cinco dimensões: nenhuma a menos, nenhuma a mais:
# | Dimensão | Pergunta | Exemplo aplicado à Rede Semear |
|---|---|---|---|
1 | What (mudança) | Que mudança positiva ou negativa aconteceu? | evasão reduzida; autonomia declarada |
2 | Who (população) | Quem foi afetado e com que grau de privação? | jovens de 14 a 17 anos do 2º distrito, renda familiar ≤ 1 salário mínimo per capita |
3 | How Much (magnitude) | Quão grande e por quanto tempo? | 2,2 p.p. de queda por 24 meses |
4 | Contribution (atribuição) | Quanto da mudança a nossa intervenção causou? | ~91,7% estimado por diferença-em-diferenças (Seção 6.2) |
5 | Risk (risco) | Qual o risco de a mudança não acontecer (ou não durar)? | risco de interrupção da mentoria no ano letivo seguinte |
São 5 dimensões, não 6. A armadilha mais comum em provas e em relatórios é somar uma sexta dimensão (como "custo", "qualidade" ou "permanência"). What, Who, How Much, Contribution e Risk: cinco.
3.7 GRI: status verificado em 2026
O relato por materialidade de impacto segue o GRI. O GRI 3: Temas Materiais (2021) e os Universal Standards revisados em 2021 são a base. Status verificado nesta pesquisa:
- o GSSB aprovou os padrões GRI 106/107 (01 to 02/06/2026) e GRI 104/105 (16/07/2026), com publicação postergada para 2027;
- Economic Impacts Phase 1 (GRI MF) em aprovação final; Phases 2 to 3 pausadas;
- Pollution Phase 1 em aprovação final;
- piloto setorial = Food & Beverage;
- Work Programme 2026 to 2028 consultado até 27/03/2026 (comunidade local, impactos ambientais, digitalização).
Dado não conferido: a data exata de eficácia dos Universal Standards 2021 (01/01/2023) não foi confirmada em nota oficial nesta pesquisa, não cite a data sem checar em globalreporting.org. Lembre-se também do que o GRI não é: é relato, não avaliação, ele não demonstra atribuição causal.
3.8 SROI no Brasil: a referência técnica do IDIS
O SROI (Social Return on Investment) segue o protocolo da Social Value International (SVI). No Brasil, a referência técnica é o IDIS: Paula Fabiani (CEO) foi a 1ª brasileira certificada pela SVI e Daniel Barretti (M&A Manager do IDIS) tornou-se o 2º brasileiro com o nível Social Value Practitioner, anunciado pela SVI em 22/05/2026.
- 🔢 Você sabia? O Impact Management Project descreve 5 dimensões de impacto, não 6, e a governança do arcabouço passou para a curadoria da Impact Frontiers. Citações que ainda falam em "6 dimensões do IMP" ou no IMP como instituição permanente estão desatualizadas em duas frentes: no número e na governança.
4. Estado da Prática no Brasil
4.1 Monitorar é comum, avaliar é raro
A pesquisa do IDIS com 86 profissionais de ~80 organizações (publicada em 2018) mostrou a assimetria central do setor:
Indicador de maturidade | Valor | Fonte |
|---|---|---|
Monitoram seus projetos | 90,7% (65%: todos) | IDIS 2018, n=86 / ~80 OSCs |
Fazem avaliação de impacto | 17,4% | idem |
Monitoram e avaliam impacto de todos os projetos | 31,9% (entre as que monitoram tudo) | idem |
Acreditam que M&A atrai recursos | 61,6% (× 27,9% de opinião contrária) | idem |
Como usar este dado com honestidade: é uma amostra pequena e não probabilística: sirva-se dela como indicador de assimetria monitoramento × avaliação, nunca como estatística nacional. A leitura válida é uma só: o setor comprova execução, não mudança.
4.2 A demanda real do doador (Pesquisa Doação Brasil 2024)
Comportamento do doador | Valor |
|---|---|
Quer evidência de que a doação "pode fazer a diferença" | 89% |
Pesquisa antes de doar | 83% (+8 p.p. vs 2022) |
Desistiu após notícia ruim | 49% |
Acha que as ONGs deixam claro o uso do dinheiro | 33% |
Fidelização ao mesmo ano | 69% (2015) → 49% (2024) |
- 🔢 Você sabia? A fidelização dos doadores caiu de 69% (2015) para 49% (2024), enquanto 83% pesquisam antes de doar (+8 pontos percentuais frente a 2022) e 49% já desistiram após uma notícia ruim. Só 33% acham que as ONGs deixam claro o uso do dinheiro. A medição de impacto, aqui, não é exercício acadêmico: é peça de retenção de base.
4.3 Panorama de financiamento
Indicador | Valor | Fonte |
|---|---|---|
Repasse corporativo a OSCs | 76% das empresas; mediana de R$ 5 mi | BISC 2025 (Comunitas) |
Recursos restritos das ONGs | 68% | CAF + IDIS 2025 ⚠️ |
Projetos de SROI do IDIS em 2024 | 41 | IDIS, 30/04/2025 ⚠️ |
Voluntariado empresarial com indicadores quantitativos | 95,12% | CBVE 2025 ⚠️ |
Fatia do ISP vinda de incentivos fiscais | ~15% | Censo GIFE ⚠️ |
Itens marcados com ⚠️ não foram conferidos na fonte primária: os 68% de recursos restritos vêm da divulgação secundária do Panorama das ONGs (CAF + IDIS, Capítulo Brasil, World Giving Report 2025, 170 OSCs, mar: jun/2025) e a publicação original precisa ser localizada; os 41 projetos de SROI são divulgados pelo IDIS e não auditados; o número 95,12% do CBVE 2025 não foi rastreado à base original; os ~15% do Censo GIFE não foram conferidos. Trate todos como não verificados em apresentações externas.
4.4 Ferramentas e referências brasileiras
- IDIS: Hub de Avaliação de Impacto Social, com SROI, custo-benefício, Matriz de Transformação Social e trilhas de M&A (41 projetos em 2024, divulgados sem auditoria); já atendeu Instituto Ayrton Senna, Petrobras, Vale, Gerando Falcões, Chamex, Parceiros da Educação e Sesc;
- Instituto Baccarelli: estudo combinou ferramenta do Insper, dados secundários e pesquisa com beneficiários;
- Fundação Itaú Social, IBGE Educação e IDIS: indicadores de impacto e evidências do PISA no Brasil;
- Gates Foundation: glosário e taxonomia de indicadores de medição de impacto;
- Thinking. Doing. Learning. together (IDIS): núcleo de apoio à monitorização e avaliação.
5. Desenho do Sistema de Medição (do Barato ao Caro)
5.1 Sequência recomendada
A ordem importa mais que a ferramenta: cada etapa só é defensável se a anterior existir. Pular a linha de base, por exemplo, inviabiliza qualquer comparação pré/pós posterior.
1. TEORIA DA MUDANÇA oficina de 1 dia com equipe e beneficiários
│
2. MATRIZ DE INDICADORES insumo · atividade · produto · resultado · impacto
│
3. BASELINE linha de base apurada ANTES da intervenção
│
4. COLETA ROTINEIRA sistemas de informação + pesquisas
│
5. RELATÓRIOS POR CICLO produto e resultado para financiadores
│
6. AVALIAÇÃO DE EFETIVIDADE comparação simples (pré/pós, série histórica)
│
7. ESTUDO DE IMPACTO só quando a decisão justificar o custo5.2 Ficha de indicador (mínimo de 9 campos)
- Nome do indicador;
- Definição operacional (o que entra e o que não entra);
- Fórmula;
- Tipo: insumo / atividade / produto / resultado / impacto;
- Linha de base;
- Meta (curto e médio prazo);
- Fonte e método de coleta;
- Frequência;
- Responsável;
- Desagregação: gênero, raça, idade, território;
- Risco de viés/indesejado.
Um indicador sem definição operacional é fonte eterna de discussão; um indicador sem responsável é um indicador que nunca é coletado.
5.3 Testes de qualidade do indicador
- É sensível à mudança (detecta evolução real)?
- É não manipulável pela própria equipe?
- O custo de coleta é proporcional ao valor da informação?
- Não gera distorção de incentivo, o caso clássico é contar "número de atendimentos", que estimula atendimentos rasos; troque por taxa de conclusão + satisfação.
5.4 Desenhos de avaliação, por rigor × custo
Desenho | Rigor | Custo | Quando usar |
|---|---|---|---|
Pesquisa de satisfação/expectativa | Baixo | Baixo | Rotina, art. 58, § 2º |
Pré/pós sem grupo de comparação | Baixo-médio | Baixo | Comunicação interna |
Séries temporais / comparação histórica | Médio | Médio | Programas com dados já existentes |
Quase-experimental (diferenças em diferenças, regressão descontinuidade) | Alto | Alto | Decisão de escala, financiador exigente |
Ensaio aleatorizado (RCT) | Máximo | Muito alto | Políticas replicáveis, doadores internacionais |
Qualitativo profundo (entrevistas, grupos focais, etnografia) | Complementar | Médio | Explicar o porquê dos números; voz do beneficiário |
5.5 Exemplo 4: a linha de base apurada em pesquisa piloto ANTES da assinatura
A Rede Semear contrata uma pesquisa piloto em setembro, antes da assinatura do termo de fomento. O recorte é explícito e a conta é auditável:
LINHA DE BASE — REDE SEMEAR (pesquisa piloto, fictícia)
─────────────────────────────────────────────────────────────────
Recorte ..... 2 distritos da rede municipal, 6 escolas
Universo .... 1.200 alunos matriculados no ano anterior
Coleta ...... dados administrativos da rede + 312 entrevistas
com responsáveis (consentimento e anonimato)
Evasão ...... 144 evadidos ÷ 1.200 matriculados = 0,120 = 12,0%
Frequência .. presenças ÷ inscrições = 78%
Satisfação .. média da escala 0–10 = 7,4 (n = 312)
Observação ... nenhuma intervenção foi iniciada até aqui:
a linha de base é APURADA, não projetada.Três decisões dessa ficha evitam anos de discussão: (i) o universo é declarado (1.200 alunos), então a fração é reproduzível; (ii) a coleta é mista (dado administrativo + escuta), então a satisfação não é opinião de quem está no evento; (iii) a linha de base foi apurada antes de qualquer atividade: depois que a mentoria começa, qualquer número novo é contaminado.
A linha de base é o que separa meta de ambição. Sem ela, a meta vira opinião: "crescer 20%" não significa nada se não se sabe a partir de quanto. Para o art. 22, IV do MROSC, o parâmetro escrito no plano precisa incluir a linha de base e a fórmula, e, sempre que possível, ela deve ser apurada em pesquisa piloto antes da assinatura, quando ainda é possível redigir a meta com precisão.
6. Linha de Base × Meta e Contribuição × Atribuição
6.1 Exemplo 5, "reduzir 20%": relativo ou absoluto?
O objetivo pactuado é "reduzir a evasão em 20% em 24 meses" com linha de base de 12,0%. A frase, sozinha, admite duas contas, e elas não dão o mesmo resultado:
HIPÓTESE A — redução RELATIVA de 20% sobre a linha de base
12,0% × (1 − 0,20) = 12,0% × 0,80 = 9,6% → META = 9,6%
HIPÓTESE B — redução ABSOLUTA de 2 pontos percentuais
12,0% − 2,0 p.p. = 10,0% → META = 10,0%
DIFERENÇA ENTRE AS DUAS METAS (universo de 1.200 alunos)
9,6% × 1.200 = 115,2 ≈ 115 evadidos
10,0% × 1.200 = 120,0 ≈ 120 evadidos
Δ = 4,8 ≈ 5 alunos por anoConclusão operacional: 5 alunos por ano separam o cumprimento da meta de sua violação, e a escolha entre elas não pode ficar implícita. Por isso o art. 22, IV exige parâmetros, não slogans. A fórmula correta no plano de trabalho é: "redução relativa de 20% sobre a linha de base de 12,0% apurada em pesquisa piloto, resultando em meta de 9,6% em 24 meses, medida semestralmente pelo indicador evadidos ÷ matriculados × 100".
Redução relativa × absoluta é a armadilha silenciosa da prestação de contas. Nenhum dos dois valores é "errado" em si; o que é errado é não escolher. Em relatório, a frase "cumprimos a meta de redução de evasão" sem a fórmula declarada é insustentável diante de uma fiscalização que leia o plano de trabalho.
6.2 Exemplo 6: contribuição × atribuição, com a conta de diferença-em-diferenças
A evasão caiu de 12,0% para 9,6% na escola atendida. Quanto disso é da Rede Semear? Duas linguagens, dois níveis de rigor:
CONTRIBUIÇÃO (sem grupo de comparação)
"Nossa mentoria contribuiu para a queda da evasão."
Base: ToC + mecanismo evidenciado + escuta dos beneficiários.
Frase aceita em relatório anual e em site institucional.
ATRIBUIÇÃO (com grupo de comparação)
Escola A (com programa) ........ 12,0% → 9,6% = queda de 2,4 p.p.
Escola B (rede semelhante,
sem programa) .......... 12,0% → 11,8% = queda de 0,2 p.p.
─────────────────────────────────────────────────────────────────
Diferença-em-diferenças ........ 2,4 − 0,2 = 2,2 p.p. atribuíveis
Parcela que ocorreria mesmo sem o programa = 0,2 p.p.
Proporção atribuída = 2,2 ÷ 2,4 = 0,9167 ≈ 91,7%
Frase permitida: "estimamos que 2,2 dos 2,4 pontos percentuais
de queda decorrem do programa, frente a escola comparável."Atribuição, aqui, continua sendo estimada: não é certeza. Mas ela é infinitamente mais defensável do que atribuir 100% da queda ao programa, que é exatamente o que a maioria dos relatórios faz sem dizer.
Situação | Linguagem correta | Rigor exigido |
|---|---|---|
Só produto e execução | "entregamos" | Registro documental |
Produto + linha de base, sem comparação | "observamos mudança" / "contribuímos para" | Pré/pós simples |
Comparação com meta histórica ou grupo externo | "estimamos que X p.p. decorrem do programa" | Quase-experimental |
Grupo de comparação desenhado (ou método equivalente) | "graças ao nosso programa" | Estudo de impacto |
Medir só satisfação e chamar de impacto é o segundo erro mais comum do setor. Pesquisa de satisfação é obrigatória em parcerias superiores a 1 ano (art. 58, § 2º) e é insumo valioso de correção de rota, mas ela tem custo baixo, rigor baixo e nenhum grupo de comparação. Dizer "8,2 de satisfação prova nosso impacto" confunde opinião de quem participou com mudança atribuível. Use satisfação para aprender, não para provar.
6.3 Árvore de decisão: qual desenho de avaliação usar
VOCÊ JÁ TEM LINHA DE BASE?
├── não ──► colete antes de qualquer comparação (Seção 5.5)
└── sim
│
A MUDANÇA É ATRIBUÍVEL AO PROGRAMA?
├── só temos produto ──► relatamos ENTREGA (art. 64)
│
├── temos pré/pós, sem comparação
│ ──► CONTRIBUIÇÃO: "observamos mudança"
│
├── temos meta histórica ou grupo externo disponível
│ ──► ATRIBUIÇÃO ESTIMADA: diferença-em-diferenças
│ (Seção 6.2), com a conta publicada
│
└── a decisão exige rigor máximo (escala, tese, capital)
──► ESTUDO DE IMPACTO (RCT ou quase-experimental),
com verificação independente (princípio 7 do SVI)A árvore tem uma regra: o nível de rigor é escolhido pela decisão, não pelo orçamento disponível. Se a decisão é pequena, um pré/pós honesto basta; se a decisão é grande, nenhum orçamento pequeno justifica fingir rigor.
7. SROI na Prática
7.1 As 7 etapas do protocolo da SVI
- Envolver stakeholders: quem vive a mudança define o que medir;
- Mapear mudanças: construir a Teoria da Mudança;
- Valorar o que importa: provações por willingness-to-pay, escolha discreta e aproximações (proxies);
- Incluir apenas o material: delimitar fronteiras com evidência de quem recebe;
- Não superestimar: ajustar atribuição e o que já ocorreria de qualquer forma;
- Ser transparente: mostrar base, premissas e limitações, e discutir com stakeholders;
- Verificar o resultado: assessoria independente quando houver público externo ou decisão relevante.
7.2 Os 8 princípios do valor social (Social Value International)
# | Princípio | Tradução operacional |
|---|---|---|
1 | Involve stakeholders | Eles definem o que medir e como |
2 | Understand what changes | Articular e evidenciar mudanças positivas/negativas, intencionais/não intencionais |
3 | Value the things that matter | Valorar segundo a preferência de quem vive a mudança |
4 | Only include what is material | Delimitar fronteiras com evidência dos stakeholders |
5 | Do not overclaim | Só atribuir o valor que a atividade realmente gerou |
6 | Be transparent | Mostrar base, premissas e discutir com stakeholders |
7 | Verify the result | Verificação; assessoria independente quando houver público externo/decisão relevante |
8 | Be responsive | Decisão tempestiva apoiada em contabilidade e relato adequados |
Os princípios 4, 5 e 7 são os três que sustentam o rigor do estudo: só o material, não superestimar e verificar.
7.3 Exemplo 7: cálculo de SROI passo a passo (dados fictícios)
O exemplo abaixo é integralmente fictício e serve apenas para ilustrar o método: nenhum número deve ser citado como fato real:
SROI — PROGRAMA FICTÍCIO "RAÍZES" (12 meses, dados inventados)
═══════════════════════════════════════════════════════════════════
ETAPA 1 — MAPEAR E VALORAR (ToC + provações com stakeholders)
Renda familiar estável .... 300 famílias × R$ 1.500 = R$ 450.000
Evasão evitada ............ 60 alunos × R$ 2.000 = R$ 120.000
Sociabilidade relatada .... 240 pessoas × R$ 300 = R$ 72.000
─────────────────────────────────────────────────────────────────
BENEFÍCIO BRUTO .................................... = R$ 642.000
ETAPA 2 — AJUSTES (princípios 4 e 5: material e não superestimar)
(a) Atribuição −20% ....... 642.000 × 0,80 = R$ 513.600,00
(b) Deadweight −10% ....... 513.600 × 0,90 = R$ 462.240,00
(c) Divisão/durabilidade
−15% ................ 462.240 × 0,85 = R$ 392.904,00
(d) Risco −5% ............. 392.904 × 0,95 = R$ 373.258,80
─────────────────────────────────────────────────────────────────
BENEFÍCIO AJUSTADO ................................. = R$ 373.258,80
ETAPA 3 — INVESTIMENTO TOTAL
Pessoas (R$ 96.000) + estrutura/operacional (R$ 24.000)
INVESTIMENTO ....................................... = R$ 120.000,00
ETAPA 4 — ÍNDICE
SROI = 373.258,80 ÷ 120.000 = 3,11049...
SROI = R$ 3,11 de benefício social por R$ 1 investido
COMPARAÇÃO COM CASOS REAIS (verificados)
FLUPP (1º do Brasil) R$ 4,08 · Baccarelli R$ 3,49
Amigos do Bem ........ R$ 6,45 (auditado pela EY)
═══════════════════════════════════════════════════════════════════7.4 Sensibilidade: o que muda se a atribuição cair
O ajuste de atribuição é a alavanca mais sensível do cálculo, e é justamente o princípio 5 do SVI ("não superestimar") que manda mexer nele com honestidade:
Cenário de atribuição | Cálculo | Benefício ajustado | SROI |
|---|---|---|---|
Base: −20% | 642.000 × 0,80 × 0,90 × 0,85 × 0,95 | R$ 373.258,80 | R$ 3,11 |
Conservador: −30% | 642.000 × 0,70 × 0,90 × 0,85 × 0,95 | R$ 326.601,45 | R$ 2,72 |
Ler a tabela ao contrário também é útil: um SROI publicado sem a tabela de ajustes não é auditável, o leitor não sabe se o número é rigoroso ou otimista. Transparência (princípio 6) é parte do resultado, não enfeite do relatório.
SROI não é KPI de rotina. É estudo pontual, caro e comunicacional: serve para captação, prestação de contas especial e decisão de escala. A rotina de gestão é outra: painel de indicadores de produto e resultado (Seção 8). Quem publica SROI todo mês não está fazendo SROI.
Ética da escuta: pesquisa com beneficiários exige consentimento informado e anonimato. A diretriz é da Social Value International e não foi relida nesta rodada de pesquisa: confirme os detalhes na fonte primária (socialvalueinternational.org) antes de aplicar questionários com marcadores identitários.
7.5 Cases brasileiros de SROI (verificados)
Case | SROI (R$ gerado por R$ 1) | Período/observação | Fonte |
|---|---|---|---|
Fundação Lucia e Pelerson Penido (FLUPP): programa VIM, Roseira/SP | R$ 4,08 | 1º SROI do Brasil; crianças de 0 to 5 anos, famílias e professores | IDIS, 2015 |
Amigos do Bem (sertão nordestino) | R$ 6,45 | Impacto acumulado de R$ 2,1 bi (2012 to 2021); 150 mil pessoas em 300 povoados; auditoria EY | IDIS, case publicado 2022 to 2023 |
Instituto Baccarelli: Núcleo Heliópolis | R$ 3,49 | Dados de 2023, estudo publicado em 2024; 4 mudanças qualitativas (cognição, oportunidades, socioemocional, relações) | IDIS/Insper, 2024 |
Leituras de cada case:
-
FLUPP (Roseira/SP): 3 meses de campo, grupos focais com educadores, crianças e famílias, construção da Teoria da Mudança, indicadores e aproximações (willingness-to-pay e escolha discreta). Uma das mudanças valoradas foi a melhora na sociabilidade: relatada por 87% dos participantes, com valor social atribuído de aproximadamente R$ 227 mil de um estudo total de R$ 3,26 milhões. Lição: o valor social vem da percepção de quem vive a mudança, não de planilha interna.
-
Amigos do Bem: SROI aplicado pelo IDIS: R$ 6,45 de benefício social por R$ 1 investido, com R$ 2,1 bilhões de impacto acumulado entre 2012 e 2021 (trabalho e renda 38,4%; educação 35,7%), alcançando 150 mil pessoas em 300 povoados. O número foi auditado pela EY e virou peça comercial: "para cada R$ 1 doado, geramos R$ 6,45 de impacto real". Lição: evidência + auditoria + tradução simples = captação.
-
Instituto Baccarelli (Heliópolis): R$ 3,49 por R$ 1 com base em dados de 2023, combinando ferramenta do Insper, dados secundários e pesquisa com beneficiários; a avaliação qualitativa apontou 4 mudanças positivas. O relatório saiu em PDF público na área de transparência e foi usado em editorial do Estadão (08/08/2024). Lição: relato público e imprensa ampliam a captação.
-
🔢 Você sabia? No primeiro SROI do Brasil (FLUPP, programa VIM), a mudança "melhora na sociabilidade" foi relatada por 87% dos participantes e valceu cerca de R$ 227 mil dos R$ 3,26 milhões totais do estudo: quase 7% do benefício veio de uma mudança que nenhuma planilha financeira teria registrado. Valor social é o que quem vive a mudança diz que mudou.
8. Painel de KPIs: a Rotina que Substitui o Relatório Bonito
8.1 Exemplo 8: painel de 5 indicadores com fonte, frequência e meta
O painel abaixo é o artefato mínimo de um Nível 3 de maturidade: cinco indicadores, cada um com fórmula, linha de base, meta, fonte de coleta, frequência e responsável:
# | Indicador | Fórmula | Linha de base | Meta | Fonte / método de coleta | Frequência | Responsável |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
1 | Frequência média | presenças ÷ inscrições × 100 | 78% | ≥ 85% | Lista de presença digital + diário escolar | Mensal | Coord. pedagógica |
2 | Conclusão de mentoria | concluintes ÷ inscritos × 100 | : (1º ciclo) | 80% | Sistema de gestão da mentoria | Semestral | Coord. de mentorias |
3 | Evasão no território | evadidos ÷ matriculados × 100 | 12,0% | 9,6% em 24 meses | Censo da rede municipal + verificação em escola | Semestral | Parcerias |
4 | Satisfação dos beneficiários | média da escala 0 to 10 | 7,4 | ≥ 8,0 | Pesquisa com 300 responsáveis, consentimento e anonimato | Semestral | M&A |
5 | Custo por aluno concluído | custo total ÷ concluintes | R$ 1.600 | ≤ R$ 1.400 | Razão contábil com contas segregadas por projeto | Anual | Financeiro |
PAINEL PÚBLICO — INSTITUTO RAÍZES (exemplo fictício)
publicado trimestralmente no portal de transparência
KPI LINHA DE BASE META STATUS
───────────────────────────────────────────────────────────────
Frequência média 78% ≥ 85% ▲ 83%
Conclusão de mentoria — 80% ● 79%
Evasão no território 12,0% 9,6% ▼ 10,8%
Satisfação (0–10) 7,4 ≥ 8,0 ● 7,9
Custo por aluno concluído R$ 1.600 ≤ R$ 1.400 ▲ R$ 1.470
───────────────────────────────────────────────────────────────
cada linha sai desagregada: gênero · raça · idade · território
(marcadores identitários autodeclarados, sempre com consentimento)
▲ aproxima-se da meta · ● estável · ▼ afasta-se da metaComo cada número chega até o painel:
- Frequência: exportação mensal das listas, consolidada até o dia 10: coleta barata porque é subproduto de rotina já existente;
- Conclusão de mentoria: extração semestral do sistema, com critério de conclusão escrito na ficha do indicador (definição operacional);
- Evasão: censo da rede, checado em duas escolas por amostra a cada ciclo: a checagem é o que impede a manipulação;
- Satisfação: survey semestral com 300 responsáveis, amostra estratificada por escola, consentimento e anonimato;
- Custo por aluno: razão contábil anual com contas segregadas por projeto: sem segregação, o número é opinião do financeiro.
8.2 A rotina de aprendizagem recomendada pelo IDIS (dez/2025)
Os elementos que transformam painel em gestão, e não em decoração de site:
-
base estruturada de participantes com marcadores identitários autodeclarados: para enxergar quem está sendo excluído;
-
pesquisa de satisfação semestral com beneficiários;
-
grupos focais anuais com equipes e famílias;
-
painel público de indicadores;
-
ciclo de correção de rota documentado em ata do conselho: conexão direta com o art. 58, § 2º da Lei nº 13.019 e com a exigência de 89% dos doadores por evidência de diferença.
-
🔢 Você sabia? O art. 58, § 2º, e a rotina de aprendizagem do IDIS são a mesma ideia em dois registros: escutar, medir e corrigir. A ata do conselho que registra a decisão de mudar a metodologia depois de um grupo focal é, ao mesmo tempo, prova de conformidade legal e evidência de governança baseada em dados.
8.3 Quando o financiador só aceita metade do caminho
Sem orçamento para estudo de impacto, negocie assim:
- Indicadores de resultado no plano de trabalho (não só produtos): negociados antes da assinatura;
- Registro no termo de que a avaliação causal é fase 2;
- Comparação com meta histórica e grupo externo disponível (outra escola, outra rede) como aproximação: com transparência sobre a limitação (princípios 5 e 6 do SVI: não superestimar e ser transparente).
8.4 Calendário mínimo de coleta (o que acontece em cada mês)
Sem calendário, painel vira enfeite. Este é o ciclo de 12 meses que sustenta os cinco indicadores da Seção 8.1:
Mês | Ação | Indicadores atualizados | Registro gerado |
|---|---|---|---|
1 | Consolidação das listas de presença | Frequência | Relatório mensal de frequência |
2 | Checagem de dados de 2 escolas | Evasão (parcial) | Ata de verificação |
3 | Publicação do painel trimestral | Todos | Painel no portal de transparência |
6 | Pesquisa de satisfação semestral + grupos focais | Satisfação, percepção de resultados | Relatório de escuta |
9 | Publicação do painel trimestral | Todos | Painel no portal de transparência |
12 | Razão contábil com segregação por projeto + assembleia | Custo por aluno concluído | Ata com ciclo de correção de rota |
Contínuo | Desagregação por gênero, raça, idade e território | Todos | Base estruturada de participantes |
O item do mês 12 é o que mais se esquece. Registrar em ata do conselho o que mudou por causa dos dados é o que fecha o ciclo do art. 58, § 2º: escuta → painel → decisão → ajuste. Sem essa ata, a organização coleta números; com ela, ela aprende, e pode provar que aprendeu.
9. Matriz de Maturidade de M&A
Diagnóstico rápido para saber onde a sua OSC está:
Nível | Característica | O que muda na prática |
|---|---|---|
1: Contábil | Só Relatório de Execução Financeira | Presta contas do dinheiro, não da mudança |
2: Gerencial | Indicadores de atividade/produto e metas do plano de trabalho | Já prova execução conforme o art. 64 |
3: Gerencial + aprendizagem | Resultados, escuta de beneficiários, correção de rota (art. 58, § 2º) | Painel público, baseline, ata de correção |
4: Estratégico | Evidência de impacto, avaliação externa, relato (GRI/IRIS+) e uso na captação | Estudo de impacto e SROI pontual |
Meta realista para a OSC brasileira: sair do Nível 1 para o Nível 3 em 12 meses. O Nível 4 é por projeto prioritário: não faz sentido estudo causal em todas as frentes simultaneamente. A sequência das Seções 5 a 8 é o roteiro exato dessa subida: ToC (mês 1), matriz de indicadores (mês 2), linha de base (mês 3), coleta (mês 4 em diante), painel (mês 6), escuta semestral e ata de correção (mês 12).
10. Erros Comuns e a Correção de Cada Um
# | Erro comum | Por que é erro | Correção |
|---|---|---|---|
1 | Tratar recibo como resultado | Recibo prova conformidade, não mudança | Separar prestação de contas de evidência de impacto |
2 | Confundir output com impacto | "240 concluintes" é entrega | Comparação com meta, linha de base ou grupo externo |
3 | Medir só satisfação e chamar de impacto | Sem grupo de comparação, não há atribuição | Usar satisfação para aprender, nunca para provar |
4 | Pular a linha de base | Sem ela, pré/pós é indefensável | Pesquisa piloto antes da assinatura |
5 | Escrever meta "reduzir 20%" sem definir se é relativa ou absoluta | 9,6% × 10,0% = 5 alunos/ano de diferença | Declarar a fórmula no art. 22, IV |
6 | Contar atendimentos | Distorção de incentivo ao atendimento raso | Trocar por taxa de conclusão + satisfação |
7 | Citar o art. 56 (25%) como vigente | Revogado pela Lei nº 13.204/2015 | Decreto nº 8.726/2016, art. 43: apostilamento, ≤10% |
8 | Confundir remanejamento de valor com mudança de meta | Valores são operacionais; metas não | Termo aditivo ou apostila (art. 57) |
9 | Fazer SROI como rotina mensal | SROI é estudo pontual e caro | Rotina = painel de produto/resultado |
10 | Somar uma 6ª dimensão do IMP | São 5: What, Who, How Much, Contribution, Risk | Corrigir a contagem em relatório e em prova |
11 | Esquecer a desagregação (gênero, raça, idade, território) | Sem ela, a ONG não vê quem fica de fora | Marcadores autodeclarados com consentimento |
12 | Atribuir 100% do resultado à ONG | Viola o princípio 5 do SVI | Ajustar atribuição e deadweight e mostrar a conta |
13 | Publicar número não verificado como fato | Quebra credibilidade quando alguém confere | Sinalizar como não conferido e citar a fonte |
Erros que mais aparecem em prestação de contas, em edital e em prova: todos decorrentes de material desatualizado ou de leitura apressada:
- Escrever "remanjamento de até 25% (art. 56)", o dispositivo foi revogado; no âmbito federal vale o Decreto nº 8.726/2016, art. 43, com ajuste por apostilamento e limite de 10% do valor global sem autorização prévia (§ 4º, com redação do Decreto nº 11.948/2024);
- Dizer que "a OSC faz monitoramento e avaliação" sem precisar quem faz, o art. 58 atribui o M&A à administração pública; a OSC presta contas (arts. 64 e 66);
- Chamar pesquisa de satisfação de estudo de impacto: rigor baixo, custo baixo, sem comparação;
- Citar "6 dimensões do IMP": são 5;
- Tratar relatório GRI como avaliação: GRI é relato por materialidade, não juízo de efetividade;
- Publicar IRIS+ v5.3c / 781 métricas, CBVE 95,12% ou ~15% do Censo GIFE como fato consolidado: nenhum desses números foi conferido na fonte primária.
11. Números do Setor e Itens Não Verificados
11.1 Curiosidades verificadas desta lição
- 🔢 Você sabia? A assimetria do setor cabe em uma frase: 90,7% monitoram, 17,4% avaliam impacto (IDIS, 2018, n=86 / ~80 OSCs): enquanto 61,6% acreditam que M&A atrai recursos. O gargalo não é convicção: é desenho de avaliação.
- 🔢 Você sabia? 89% dos doadores querem evidência de que a doação "pode fazer a diferença" e 83% pesquisam antes de doar (Pesquisa Doação Brasil 2024). Só 33% acham que as ONGs deixam claro o uso do dinheiro: a lacuna entre 89% e 33% é exatamente o espaço que o painel de indicadores ocupa.
- 🔢 Você sabia? O Amigos do Bem acumulou R$ 2,1 bilhões de impacto entre 2012 e 2021 (trabalho e renda 38,4%; educação 35,7%), com SROI de R$ 6,45 auditado pela EY: evidência com auditoria externa é o que transforma número em peça de captação.
- 🔢 Você sabia? O IDIS aplicou 41 projetos de SROI em 2024: número divulgado pela própria organização e não auditado; serve para dimensionar a atividade no país, não como estatística oficial.
11.2 Itens sinalizados como não verificados nesta pesquisa
Para você não transformar lacuna de pesquisa em afirmação categórica:
- IRIS+ v5.3c / 781 métricas / Core Metrics atualizados em 07/2025: número citado em material secundário; conferir em iris.ifc.org;
- GRI: data exata de eficácia dos Universal Standards 2021 (01/01/2023): não confirmada em nota oficial;
- Censo GIFE: ~15% do ISP vindo de incentivos fiscais: não conferido;
- "41 projetos de SROI do IDIS em 2024": divulgado pelo IDIS, não auditado;
- Panorama das ONGs (CAF + IDIS): URL de divulgação secundária: localizar a publicação original;
- Cases Liga STEAM / Doutores da Alegria com SROI: não confirmados; não citar como fato;
- CBVE 2025, "95,12% de voluntariado empresarial com indicadores quantitativos": número não rastreado à base original;
- Ética da escuta: pesquisa com beneficiários exige consentimento e anonimato: diretriz da SVI, não relida nesta rodada;
- Amostra do IDIS 2018: pequena e não probabilística: usar como indicador de assimetria, nunca como estatística nacional.
12. Medição de Impacto na Prática: Casos Reais
As seções anteriores desenharam o sistema; este bloco mostra como ele aparece, e como não aparece, em organizações reais. A pesquisa de casos mapeou 11 organizações verificadas (7 brasileiras e 4 internacionais), todas com CNPJ, registro estatutário ou demonstração financeira localizada: nenhuma cifra desta seção é estimativa própria. O próprio mapeamento aponta, para esta lição, três casos, Instituto Sou da Paz, Todos Pela Educação e TETO Brasil (avaliação com a FGV), aos quais se soma a Fundação Itaú, cujos números de alcance são os mais desagregados do recorte.
Toda análise a seguir responde a três perguntas: o que a organização alega medir (qual nível da cadeia da Seção 1), com que dado verificado (valor, ano e fonte) e como mede (indicador, denominador e ciclo). A terceira pergunta é a que decide se o número sustenta prestação de contas, resultado ou impacto.
12.1 O que cada caso mede: matriz de resultados verificados
Caso | O que alega medir (nível da cadeia) | Dado verificado (ano) | Como mede: indicador citado |
|---|---|---|---|
Instituto Sou da Paz | Produto de incidência: evidência técnica produzida | 225 mil armas analisadas, 3.300 policiais capacitados, 8 pesquisas e 6 estados (2025); +700 mil armas acumuladas em 20 anos | Arsenal do Crime (armas analisadas), cobertura estadual do DESARMES, nº de pesquisas, metas fixadas e monitoradas pelos conselhos |
Todos Pela Educação | Produto de monitoramento de política pública | 62% das matrículas cobertas (2024); 13 temas da agenda Educação Já; Anuário da Educação Básica em sua 12ª edição (2025) | % de matrículas do país cobertas pelo monitoramento, nº de temas monitorados e série anual do anuário |
TETO Brasil | Produto padronizado (moradia) + avaliação externa | 113 moradias, 76 projetos e 8.134 voluntários (2024); 5.000ª moradia em dez/2024; meta 2030 de 1 milhão de pessoas | Contagem de moradias por ciclo, meta com prazo declarado e avaliação de impacto com a FGV |
Fundação Itaú (Itaú Social) | Alcance com denominador declarado por unidade | R$ 297 mi investidos, 5,16 mi de pessoas, 95 mil turmas, 20,8 mil escolas e 3,2 mil municípios (2024) | Pessoas, turmas, escolas e municípios contados em unidades separadas; R$ 19,9 mi mobilizados para OSCs |
Habitat for Humanity | Alcance direto × indireto com números separados | 3.035.972 pessoas com moradia (FY2024); +5,3 mi por incidência; +62 mi desde 1976 | Duas contagens distintas: pessoas com moradia (diretas) e alcance por incidência (indiretas), com o total acumulado desde 1976 |
Leitura da matriz: nenhuma das cinco organizações publica um número "de impacto" puro. Todas publicam produto com unidade, ano e fonte, e é exatamente isso que as torna auditáveis. O salto para resultado e para impacto depende do que a organização declara em seguida: série histórica, meta com fórmula ou grupo de comparação.
- 🔢 Você sabia? A própria pesquisa de casos mostra por que comparar escala sem métrica é inválido: o mesmo conceito de "alcance" aparece como 5.000 famílias (TETO), 5,16 mi de pessoas (Itaú Social), 290 mil voluntários (Atados), 1 em cada 7 bengaleses (BRAC) e 3,03 mi de pessoas diretas mais 5,3 mi indiretas (Habitat). São cinco unidades diferentes: nenhuma se converte na outra sem conversão declarada, com denominador e ano.
12.2 Instituto Sou da Paz: incidência medida por evidência
O que alega medir. Segurança pública com evidências: o produto é conhecimento técnico sobre armas, homicídios, investigação e justiça juvenil, e a mudança pretendida é incidência em política pública: a lição do caso é que, em trabalho de advocacia, impacto se mede por evidência produzida e por incidência alcançada, nunca por beneficiário direto inventado.
Dados verificados. Em 2025: 6 estados com o programa DESARMES, 3.300 policiais capacitados, 8 pesquisas e 225 mil armas analisadas (plataforma Arsenal do Crime); a campanha acumula +700 mil armas em 20 anos. Receita de R$ 12.792.835 em 2022, dos quais 65% de fundações do exterior; equipe de 25 pessoas, auditoria da KPMG e selo de interesse público do Ministério Público.
Como mede. (i) contagem de produto com unidade e ano (armas analisadas, policiais, pesquisas); (ii) cobertura territorial (estados alcançados) como denominador de alcance; (iii) governança de meta: conselhos Diretor e Fiscal que fixam e monitoram metas, com comitê de equidade e página de transparência publicada.
O que copiar do sistema de medição do Sou da Paz: (1) em trabalho de incidência, meça o que é seu de fato: evidência produzida (pesquisas, dados) e alcance da incidência (estados, policiais capacitados): em vez de inventar "beneficiários diretos" que a própria atividade não gera; (2) publique metas fixadas por um colegiado, não pela equipe executiva: a meta deixa de ser opinião de quem executa; (3) mantenha auditoria e página de transparência independentes do doador: principalmente quando 65% da receita vem de fonte externa concentrada.
12.3 Todos Pela Educação: o resultado é política pública monitorada
O que alega medir. Incidência educacional: o produto é conhecimento e monitoramento (agenda, municípios, anuário) e o resultado esperado é política pública melhorada. Sem beneficiário direto contável, a organização mede cobertura do monitoramento.
Dados verificados. Em 2024, receita de R$ 26.082.377, sem recebimento de recursos públicos, com superávit de R$ 4,66 mi, patrimônio líquido de R$ 16,9 mi e aplicação a 15,40% a.a.; a agenda Educação Já reúne 13 temas e o Educação Já Municípios cobriu 62% das matrículas em 2024; o Anuário da Educação Básica está em sua 12ª edição (2025). Governança com Assembleia Geral, Conselho de Administração e auditoria independente anual.
Como mede. (i) denominador externo, o percentual é calculado sobre matrículas da Educação Básica, número que existe independentemente da ONG; (ii) série anual comparável: 12 edições seguidas do anuário funcionam como linha de base pública; (iii) cobertura municipal: os 62% são alcance do monitoramento, não resultado educacional.
O que copiar do sistema do Todos Pela Educação: (1) quando não houver beneficiário direto, declare o denominador externo (matrículas, municípios, populações): ele dá escala sem inflar a conta; (2) publique série anual: um anuário na 12ª edição é, por si só, uma linha de base verificável por terceiros; (3) trate a independência de financiamento como parte do indicador: para quem critica política pública, não receber verba pública é o que sustenta a credibilidade da crítica.
12.4 TETO Brasil: produto padronizado, meta com prazo e avaliação externa
O que alega medir. Habitação emergencial com produto padronizado, a casa montada em 2 dias torna a contagem auditável em qualquer território, combinado a avaliação externa de impacto.
Dados verificados. Em 2024: 113 moradias, 76 projetos e 8.134 voluntários; a 5.000ª moradia foi alcançada em dez/2024, em Diadema; acumulado de +90 mil voluntários e +327 projetos; meta 2030 de 1 milhão de pessoas; e avaliação de impacto com a FGV. A captação do jantar de dez/2025 (~R$ 1,8 mi) é declaração da própria organização, sem balanço auditado localizado.
Como mede. (i) contagem por ciclo de um produto idêntico (moradia); (ii) meta de longo prazo com ano declarado (2030); (iii) juízo de impacto terceirizado na FGV: a organização não se autoatribui a causalidade.
O que copiar do sistema do TETO: (1) padronize o produto antes de contá-lo: o que é montado igual em todo lugar pode ser auditado em qualquer lugar; (2) declare a unidade da meta: "1 milhão de pessoas" (2030) e "113 moradias" (2024) não são a mesma métrica, e compará-las exige conversão declarada de pessoas por moradia; (3) separe quem entrega de quem avalia: a FGV julga resultado e impacto, a ONG responde por produto e execução.
12.5 Fundação Itaú: alcance com denominador declarado
O que alega medir. Alcance em escala, com unidades separadas, pessoas, turmas, escolas e municípios, em vez de um único número agregado.
Dados verificados. Em 2024: receitas de R$ 444,2 mi (93% financeiras), despesas de R$ 307,3 mi (das quais R$ 181,7 mi em projetos), superávit de R$ 136,8 mi e patrimônio líquido de R$ 5,54 bi; R$ 297 mi investidos, 5,16 mi de pessoas, 95 mil turmas, 20,8 mil escolas, 3,2 mil municípios e R$ 19,9 mi mobilizados para OSCs. O FIA 2024 distribuiu R$ 18,8 mi do 1% do IR para 40 projetos (2023: R$ 24,5 mi).
Como mede. (i) denominador por unidade: cada número tem sua própria unidade, o que permite razões auditáveis como o custo por pessoa alcançada (Exemplo 10); (ii) indicador público com limite: a organização declara parâmetro que limita os custos administrativos a 5% do investido; (iii) mobilização separada de execução: os R$ 19,9 mi mobilizados para OSCs são publicados à parte do investido, para não confundir repasse com entrega.
- 🔢 Você sabia? A BRAC publica, no mesmo relatório, duas unidades diferentes: alcance: "1 em cada 5 bengaleses atendeu" (2024) e "~26 milhões, 1 em cada 7" (2025), e mudança: "2,3 milhões saíram da pobreza extrema" (2024). Declarar denominador populacional e resultado na mesma página é o oposto do impact washing (lavagem de impacto): o leitor enxerga o que é cobertura e o que é mudança.
Impact washing: transformar alcance em impacto sem trocar de nível. O hábito mais exportável do setor é publicar escala como prova de mudança, "chegamos a 5,16 milhões de pessoas", "5.000 famílias atendidas", "225 mil armas analisadas", e deixar o leitor a concluir o resto. Alcance é produto; mudança é resultado; atribuição é estudo de impacto. Antes de publicar qualquer número de escala, três checagens: (i) declare a métrica, famílias, pessoas, turmas, voluntários e indiretos não são comparáveis entre si; (ii) declare fonte e ano, inclusive quando forem declaração da própria organização sem balanço; (iii) declare o que mudou (linha de base, meta com fórmula ou contragrupo). Sem o item (iii), o número segue sendo alcance, e nem auditoria financeira converte produto em impacto.
12.6 Exemplo 9: taxa de alcance e o teste da definição operacional (Sou da Paz)
Com os dados verificados do caso, as contas são reproduzíveis por qualquer leitor:
EXEMPLO 9 — TAXAS DE ALCANCE DO DESARMES (Instituto Sou da Paz, 2025)
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Dado verificado (2025) .... 225.000 armas analisadas · 3.300 policiais
capacitados · 8 pesquisas · 6 estados
campanha acumula 700.000 armas em 20 anos
(1) ARMAS POR ESTADO ......... 225.000 ÷ 6 = 37.500 armas/estado
(2) POLICIAIS POR ESTADO ..... 3.300 ÷ 6 = 550 policiais/estado
(3) PESQUISAS POR ESTADO ..... 8 ÷ 6 = 1,33 pesquisa/estado
(4) RITMO HISTÓRICO DA
CAMPANHA ................. 700.000 ÷ 20 = 35.000 armas/ano
(5) RAZÃO 2025 × RITMO ....... 225.000 ÷ 35.000 = 6,43 ≈ 6,4×
TESTE DE DEFINIÇÃO OPERACIONAL (antes de publicar a conta 5):
"armas analisadas" (Arsenal do Crime, 2025) e "armas acumuladas da
campanha" (20 anos) têm NOMES diferentes — só se dividem se a
definição operacional for a mesma (ficha da Seção 5.2). Se não
for, publique apenas as taxas (1 a 3), que saem do MESMO recorte.As taxas (1) a (3) são defensáveis porque saem de um recorte único (mesmo ano, mesma fonte, mesmo período). A razão (5) é didática: ela só vira indicador publicável depois da ficha de definição operacional. E nada disso prova mudança na segurança pública: é alcance; para resultado, o caso precisaria de série histórica de homicídios nos 6 estados atendidos, com e sem programa.
12.7 Exemplo 10: linha de base de custo por alcançado (Fundação Itaú, 2024)
A linha de base também pode ser montada a partir de números públicos, desde que numerador e denominador venham da mesma fonte e do mesmo ano:
EXEMPLO 10 — LINHA DE BASE A PARTIR DE NÚMEROS PÚBLICOS (2024)
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Recorte .... exercício de 2024, dados publicados da Fundação Itaú
Unidades ... R$ 297 mi investidos · 5,16 mi pessoas · 95 mil turmas ·
20,8 mil escolas · 3,2 mil municípios
(1) CUSTO POR PESSOA ALCANÇADA ... 297 ÷ 5,16 = 57,5581...
≈ R$ 57,56 por pessoa
(2) TURMAS POR ESCOLA ............. 95.000 ÷ 20.800 = 4,567 ≈ 4,6
(3) PESSOAS POR ESCOLA ............ 5.160.000 ÷ 20.800 = 248,08 ≈ 248
(4) PESSOAS POR MUNICÍPIO ......... 5.160.000 ÷ 3.200 = 1.612,5
LINHA DE BASE declarada ....... custo de R$ 57,56 por pessoa
alcançada (2024, mesma fonte)
META ILUSTRATIVA: redução RELATIVA de 10% em 12 meses
57,56 × 0,90 = 51,804 ≈ R$ 51,80 por pessoa
Δ por pessoa = 57,56 − 51,80 = R$ 5,76
efeito agregado ≈ 5,76 × 5,16 mi = R$ 29,7 mi
Observação: os valores financeiros da fonte vêm EM R$ MIL —
confira o PDF original antes de reproduzi-los (item não verificado).Três decisões tornam essa linha de base defensável: (i) a unidade está declarada ("por pessoa alcançada", não "por beneficiário", beneficiário exigiria definição operacional de quem entra e quem não entra); (ii) fonte e ano são os mesmos em numerador e denominador; (iii) a meta é declarada como relativa sobre a linha de base, evitando a armadilha da Seção 6.1. Repare no limite: o denominador é alcance, a conta melhora custo por alcance, não prova mudança; para resultado, o painel da Seção 8.1 precisaria de indicador de aprendizagem ou de permanência das turmas.
12.8 Síntese: o que copiar de cada sistema de medição
Caso | O que copiar já no próximo ciclo | Armadilha que o caso evita |
|---|---|---|
Sou da Paz | Evidência e alcance da incidência declarados como produto, com meta fixada por conselho e auditoria publicada | Inventar "beneficiários diretos" em trabalho de advocacia |
Todos Pela Educação | Denominador externo público (matrículas) e série anual comparável (12ª edição do anuário) | Contar alcance sem base de comparação pública |
TETO Brasil | Produto padronizado contado por ciclo, meta com ano (2030) e juízo de impacto terceirizado (FGV) | Somar moradias, famílias e pessoas na mesma meta |
Fundação Itaú | Unidades separadas (pessoas, turmas, escolas, municípios) que se prestam a razões auditáveis | Publicar um número agregado sem denominador declarado |
Habitat | Diretas e indiretas em números separados, com o total acumulado (desde 1976) declarado | Somar produto e incidência num número só |
Com a síntese à vista, ordene agora o passo a passo que transforma qualquer um desses números de alcance em indicador auditável:
Como responder
Exercício de ordenação com 5 itens. Coloque-os na ordem correta e verifique a resposta.
Ordene os passos para transformar um número de alcance de caso real em indicador defensável:
Transferência para a sua organização: escolha um indicador de um caso desta seção e preencha a ficha de 9 campos (Seção 5.2) com os seus números: unidade, fórmula, linha de base do último ciclo, meta relativa ou absoluta, fonte, ano, frequência, responsável e desagregação. Se você não conseguir preencher a linha de base com um número que já existe, o indicador ainda é desejo, e desejo não entra em plano de trabalho (art. 22, IV).
Perguntas Práticas (Practice Questions)
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Quantas dimensões de impacto o arcabouço do Impact Management Project (sob curadoria da Impact Frontiers) descreve?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Uma parceria MROSC com vigência de 24 meses. O que a administração pública deve fazer, sempre que possível, sobre os beneficiários?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
O que o relatório técnico de monitoramento e avaliação deve conter sobre impacto, segundo o art. 59, § 1º, II, da MROSC?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Qual foi o primeiro SROI aplicado no Brasil e qual foi seu resultado?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Segundo a pesquisa do IDIS (2018, n=86 profissionais de cerca de 80 organizações), qual é a assimetria central do setor brasileiro?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Quantos são os princípios do valor social da Social Value International?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Quais três princípios do SROI/SVI sustentam especificamente o rigor de um estudo de valor social?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
Qual é o status verificado do GRI em 2026?
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
O Instituto Sou da Paz obteve R$ 12,79 milhões em 2022, com 65% de recursos de fundações do exterior. Em gestão de risco, esse dado indica:
Como responder
Questão de múltipla escolha com 4 opções. Selecione uma opção e escolha Verificar resposta.
A BRAC registrou BDT 14,1 bilhões de doações sobre BDT 140,6 bilhões de receita no exercício encerrado em 30/06/2024. O percentual é aproximadamente:
Como responder
Exercício de associação com 7 pares. Associe cada item à esquerda com a resposta à direita.
Associe cada conceito ao seu significado, fórmula ou fundamento legal correto:
Arraste as respostas daqui:
Como responder
Exercício de preenchimento com 4 lacunas. Digite as palavras que faltam e verifique a resposta.
Complete o cálculo de SROI e a diferença entre meta relativa e meta absoluta apresentados na lição:
No exemplo fictício Raízes, o benefício bruto de R$ 642.000 foi ajustado até R$ 373.258,80 e, dividido pelo investimento de R$ 120.000, resultou em SROI de R$ espaço por R$ 1 investido. Já nos casos reais brasileiros, a FLUPP registrou R$ espaço (1º SROI do Brasil) e o Instituto Baccarelli R$ espaço. Por fim, uma redução relativa de 20% sobre a linha de base de 12,0% resulta em meta de espaço.
Banco de Palavras, arraste as palavras para os espaços acima:
Armadilhas desta lição:
- Confundir output com impacto: "240 alunos concluintes" é produto; só comparação com meta, linha de base ou grupo externo sustenta mudança;
- Medir só satisfação e chamar de impacto: pesquisa de satisfação é insumo de aprendizagem (art. 58, § 2º), não estudo de impacto: não tem grupo de comparação;
- 5 dimensões do IMP, não 6: What, Who, How Much, Contribution, Risk;
- Prestação de contas ≠ evidência de impacto: recibo prova conformidade, estudo de impacto prova mudança;
- O art. 56 (25%) foi revogado: no âmbito federal vale o Decreto nº 8.726/2016, art. 43 (apostilamento, ≤10% do valor global); e ajustar valor não é mudar meta (art. 57);
- "Reduzir 20%" sem fórmula pode significar meta de 9,6% ou de 10,0%: declare se é relativa ou absoluta;
- SROI é estudo pontual, não KPI de rotina;
- Dados não conferidos (IRIS+ v5.3c/781 métricas, 95,12% do CBVE, ~15% do Censo GIFE, 68% de recursos restritos, 41 projetos do IDIS) só podem ser citados como não verificados;
- A assimetria 90,7% monitoram × 17,4% avaliam vem de amostra pequena e não probabilística: nunca a apresente como estatística nacional.
Pontos Principais (Key Takeaways):
- A cadeia de resultados separa insumo → atividade → produto → resultado → impacto; monitoramento responde a eficiência, avaliação a efetividade e impacto, e só o estudo de impacto sustenta a frase "graças ao nosso programa";
- O MROSC (Lei nº 13.019/2014) obriga a pensar em impacto: parâmetros de aferição no plano (art. 22, IV), M&A pela administração (art. 58), pesquisa de satisfação em parcerias acima de 1 ano (art. 58, § 2º) e relatório técnico com "impacto do benefício social" (art. 59, § 1º, II);
- O art. 56 (remanjamento de 25%) foi revogado: federalmente valem apostilamento pelo Decreto nº 8.726/2016 (≤10% do valor global) e a regra de que metas mudam só por termo aditivo ou apostila (art. 57);
- Sem linha de base não existe meta defensável, e "reduzir 20%" significa 9,6% (relativa) ou 10,0% (absoluta), cerca de 5 alunos por ano de diferença em 1.200;
- A assimetria brasileira é clara, 90,7% monitoram, só 17,4% avaliam impacto (IDIS 2018, amostra não probabilística), enquanto 89% dos doadores querem evidência de que a doação faz diferença (Doação Brasil 2024);
- Os frameworks se complementam: Teoria da Mudança explica o nexo causal, o modelo lógico organiza indicadores, IRIS+/GRI padronizam o relato, IMP qualifica em 5 dimensões e o SROI traduz mudanças em R$ por R$ investido;
- Cases reais: FLUPP R$ 4,08 (1º SROI do Brasil), Amigos do Bem R$ 6,45 (auditado pela EY) e Baccarelli R$ 3,49: evidência + auditoria + tradução simples igual a captação;
- A rota prática é sair do Nível 1 (contábil) para o Nível 3 (aprendizagem) em 12 meses com painel de KPIs (fonte, frequência, meta e responsável), linha de base, escuta semestral e ciclo de correção de rota documentado, o Nível 4 fica para o projeto prioritário.